Medo de existir - conteúdo

Será o medo real?


Quando olho para o passado e me recordo da forma como interagia socialmente, na sala de aula, nas interações com amigos e colegas (principalmente do género feminino), e até mesmo em ambiente familiar, consigo facilmente identificar um forte medo de me expressar livremente e de ser criticado. Hoje, vejo claramente como durante tanto tempo me rendi a este medo de existir, que me inibiu tantas vezes de falar e agir, e como fui uma mera sombra de mim próprio. Se me entregar com curiosidade na procura da raiz, ou raízes, deste medo, poderei encontrar, com alguma facilidade, diversos eventos que poderão ter criado e reforçado este medo. No entanto, mais importante do que descobrir a sua origem, é reconhecer que a simples presença deste medo, não precisa de limitar a minha total e livre expressão, enquanto ser humano e enquanto veículo da Consciência que sou!

Sempre que estou em contacto com a minha verdadeira Essência, a minha identidade mais profunda e intemporal, para além da constante mutabilidade do corpo e da mente, há uma estabilidade e uma confiança que se revelam, que não dependem de nenhuma circunstância ou acontecimento em particular. Refiro-me à qualidade inerente do próprio Ser, sempre presente, mesmo quando experiencio um estado intenso e agitado. A experiência de sentir este medo, mas de não me deixar limitar e contrair por ele, é talvez a mais libertadora e significativa de todas as experiências que já vivi! Porquê? Porque reforça em mim a confiança de que tudo é possível, de que em nenhum momento sou escravo ou refém de qualquer emoção ou sentimento, e de que já sou livre para escolher como quero responder e agir, sempre.

É importante referir que, com isto, não quero dizer que devemos evitar ou suprimir as nossas emoções e sentimentos, antes pelo contrário. Cada vez mais reconheço a importância do sentir, do experienciar de forma curiosa e integral, com a totalidade do meu ser, as energias que estão vivas em mim (como a própria raiz da palavra indica, emoções são energias em movimento). Só que em vez de reagir, de forma muitas vezes inconsciente a essas energias, o que procuro cada vez mais é agir, de forma proativa, com maior consciência dos meus impulsos e condicionamentos, e assumindo total responsabilidade por cada ação.

Reconhecer que o medo só é real quando escolho agir sobre ele, quando escolho anular-me pela sua simples presença, é uma das revelações mais libertadoras que já vivi até hoje! E para além da liberdade que esta revelação traz com ela, traz também uma grande responsabilidade, a de viver com a integridade de responder sempre desde a minha mais profunda compreensão e motivação. Não é por acaso que se costuma dizer “A ignorância é uma benção”, pois enquanto não sabemos melhor, nunca poderemos assumir total responsabilidade pelas nossas ações. Mas quando existe clareza para ver a Realidade tal como ela é, já não nos conseguimos enganar a nós próprios verdadeiramente. E se mesmo assim o escolhermos fazer, iremos sofrer ainda mais e causar maior sofrimento aos outros com quem nos relacionamos.

E é com esta partilha, e com plena consciência das suas implicações, que me comprometo, tendo-te a ti como testemunha, a viver uma Vida com base na Verdade de que sou sempre livre para expressar todo o meu potencial, com infinita paixão, com ou sem medo… E tu, como escolhes viver a Vida?

Ricardo Gonçalves