Coragem de ser Imperfeito/a - conteúdos

E se eu arriscar ser imperfeito

Mas afinal quem nunca sentiu medo de ser rejeitado devido às suas imperfeições? 
O mundo em que crescemos invade-nos de ideias, expectativas e julgamentos. Apesar de termos sempre a opção de escolha sobre o que queremos fazer com as nossas vidas, quase todos acabamos por tentar ajustar-nos à sociedade, criando uma ideia de perfil ideal para o futuro, uma imagem de nós próprios que se cristaliza à medida que crescemos e que deixa pouco espaço para explorar quem realmente somos.

Brene Brown, uma investigadora norte-americana, fez um extenso estudo sobre a capacidade de nos relacionarmos e o sentimento de pertença. Nas suas entrevistas, constatou que, ao abordar este tema, a maioria das pessoas relatavam histórias sobre a sua incapacidade de se relacionarem com outros e sobre a ausência do sentimento de pertença nas suas vidas. Por detrás da ausência do sentimento de pertença, estava o medo de serem rejeitadas e a vergonha em mostrar algo sobre si que consideravam errado ou imperfeito.
Pelo contrário, as pessoas que demonstravam um grande sentimento de pertença acreditavam fundamentalmente que mereciam ser amadas. Estas pessoas tinham uma característica em comum. Todas elas tinham a capacidade de ser vulneráveis e a coragem de ser imperfeitas. É importante reparar que estas pessoas não deixavam de experienciar desconforto, dificuldades ou medo, mas a sua capacidade de ser vulneráveis em frente aos desafios da vida, dava-lhes a força necessária para continuar o seu caminho e sentirem-se incluídas e merecedoras de relacionamentos e amor. Estas pessoas acreditavam que a vulnerabilidade as tornava mais autênticas, eram capazes de amar sem estar à espera de serem amadas e conseguiam largar ideias sobre quem pensam que são, para descobrir quem realmente são.

Este assunto é relevante para os portugueses, na medida em que os nossos traços culturais apontam para um fraco sentido de auto-confiança, ou complexo de inferioridade, e um generalizado medo do conflito. O medo de questionar as autoridades, o medo de colocar questões aos professores, o medo de contrariar as opiniões ou o medo de ser julgado por ser diferente. Todos estes são sintomas da incapacidade de sermos vulneráveis, ou da falta de coragem para arriscarmos ser imperfeitos.


A dificuldade em ser vulnerável é algo comum a todos os seres humanos, presente em todas as culturas, no entanto, em Portugal a repressão da expressão livre que aconteceu durante  48  anos de ditadura, feriu a nossa capacidade de nos expressarmos sem medo. Desta forma, consigo ver em mim, e na maioria dos portugueses, uma preocupação exagerada com aquilo que os outros pensam. 

Na minha própria experiência, consigo ver como a imagem que tenho de mim próprio (o que deveria ser e dizer e como me deveria comportar) me condiciona a minha livre expressão, por medo de errar e ser julgado. Este complexo de inferioridade, transforma-se por vezes no seu inverso. Quando não aceito a minha imperfeição, não consigo aceitar a imperfeição nos outros. Nestes momentos, sinto-me capaz de criticar os outros assumindo uma posição superior e pouco flexível. Para ser livre destas dinâmicas de inferioridade versos superioridade, só tenho um caminho. Ser vulnerável, partilhar aquilo que sinto e largar ideias fixas sobre mim e sobre os outros.

Por tendência generalizada, acreditamos firmemente que para que “eu” mude, o mundo e os outros também têm de mudar. Perdemos tanto tempo a criticar os outros e a Vida. Ao contemplar a minha vida, consigo ver como passei grande parte do tempo a queixar-me por não ser amado, sem antes ser capaz de amar. A depressão, a culpa, o medo, a melancolia, a pressão, a ansiedade tomavam conta da minha alma. Poderia encontrar várias razões que justificassem o meu isolamento e o meu sentimento de que não podia contar com ninguém. No entanto, hoje em dia, apesar de ainda ter muito que caminhar, sei que se não estiver disposto a amar e a ser vulnerável, este sentimento de que sou rejeitado pelos outros e pela vida, vai continuar a aumentar. 

A verdade é que todos queremos amar e ser amados, simplesmente pelo facto de que essa é a nossa natureza e a linguagem universal, que nos conecta a todos. A qualquer momento das nossa vidas, sempre que decidimos largar as ideias sobre quem somos e nos permitimos ser autênticos e vulneráveis, descobrimos algo de novo sobre nós, descobrimos que as pessoas se sentem inspiradas por nós, que têm vontade de estar connosco e saber mais sobre nós. Descobrimos que o ideal de perfeição é apenas uma ideia que impomos à vida, um peso constante que carregamos aos ombros, uma imagem que nunca será concretizada.

Hoje sei que se arriscar ser imperfeito, a vida torna-se uma aventura a cada instante, os desafios tornam-se os nossos professores, os erros  transformam-se em oportunidades para melhorar e a imperfeição encontra a perfeição do processo, que é viver em constante estado de curiosidade. 

Ser imperfeito é ser livre para viver a realidade e descobrir o amor que está sempre aqui e agora, à nossa espera para nos guiar.