Deixa aqui a tua mensagem
em busca da alma portuguesa
Ao Povo do Coração
-
To The People of the Heart
Aqui está o meu primeiro rascunho para o primeiro capítulo do meu livro. Quero escrevê-lo de uma forma que deixaria alguém curioso se o pegasse numa livraria e começasse a ler. Então, especialmente os portugueses que estão a ler isto, por favor, deixe-me saber o que pensam...

Here is my first draft for the first chapter of my book. I want to write it in a way that would make someone curious if they picked it up in a bookshop and started reading. So especially the Portuguese who are reading this, please let me know what you think...


Ao Povo do Coração

Quero vos contar uma coisa. Algo muito importante. É sobre vocês – os portugueses – mas também é algo que pode ter grandes implicações para todo o mundo. É sobre a humanidade e é sobre o tempo em que estamos a viver agora, mas também é sobre o futuro – a evolução futura da nossa consciência e cultura global coletiva. Eu sei que é uma "grande ideia" e vocês geralmente gostam de manter as coisas pequenas, mas aguentem firme comigo, acho que vocês vão gostar disto, mesmo que pensem que sou louco e acabem a discordar completamente de mim.

Antes de vir viver para Portugal, em 2007, com quarenta e dois anos, nunca tinha conhecido um único português. Avançando quinze anos para o presente, em 2022, sinto-me muito abençoado por ter um amplo círculo de amigos e alunos portugueses e, mais recentemente, uma linda namorada portuguesa. Os últimos quinze anos foram os mais felizes e criativos da minha vida e não acredito que isso pudesse ter acontecido em qualquer outro lugar. Este desdobramento milagroso esteve, e ainda está, profundamente entrelaçado com uma verdade inegável que se imprime no meu ser cada dia mais profundamente.

Essa verdade é que vocês portugueses são, o que eu gosto de chamar, "Povo do Coração". E digo Coração com C maiúsculo, porque não me refiro apenas ao coração emocional, sentimental, embora vocês portugueses tenham muito disso (especialmente quando se trata daquela característica cultural por excelência e intraduzível chamada Saudade). Por Coração com C maiúsculo quero dizer a vossa capacidade inata de sentir e intuir o Coração Espiritual que transcende e inclui todas as nossas individualidades e a nossa existência relativa no tempo e no espaço. Claro que esse Coração Espiritual é Universal e é a essência intrínseca de todos os seres humanos. É a fonte de tudo o que é Bom, Verdadeiro e Belo e sua Natureza é o Amor. Algumas pessoas chamam isso de Deus, mas realmente não importa se acreditas em Deus ou não para entenderes o que quero dizer com o Coração Espiritual. Curiosamente, fui criado como católico e rejeitei esse sistema de crença religiosa na minha adolescência, quando comecei a procurar respostas experienciais para as grandes questões da vida: Quem sou eu? Por que estou aqui? Mas hoje em dia, tendo descoberto algumas grandes respostas para essas grandes questões, estou mais do que confortável com a noção de Deus. De facto, viver no norte de Portugal está a levar-me a uma apreciação mais profunda das minhas raízes católicas. Eu simplesmente não me relaciono com Deus como estando "lá fora" na borda do universo em algum lugar, separado deste mundo ou de mim mesmo. Em vez disso, Ele (ou Ela!) é o Coração Universal e Base de Tudo o que É. Jesus aparentemente disse que "O Pai e eu somos Um", e todos nós já ouvimos a admoestação do Evangelho de João de que "Deus é Amor", bem, essa é uma descrição boa o suficiente para mim.

Se já ficaste comigo até aqui, deves estar a perguntar: "Bem, se esse Coração Espiritual é Universal, então por que é que ele está a dizer que nós – os portugueses – somos o povo do Coração? Não há nada de especial sobre nós, certo?" Digo isso porque na minha experiência vocês portugueses em geral têm um jeito de ser, uma inclinação natural inconsciente, que emana deste Coração de uma forma única. Por "único" não quero dizer que vocês portugueses sejam "especiais" e, portanto, "superiores" em qualquer sentido. Quero dizer que por tendência vocês expressam qualidades particulares deste Coração Universal de uma forma que é única no mundo. E não te surpreendas se não fizeres ideia do que estou a falar, isso é bastante normal, porque a grande maioria de vocês não faz ideia disso. De certa forma, é uma coisa linda que vocês não tenham nenhuma ideia sobre isso, que não tenham autoconsciência sobre isso. Isso torna a vossa expressão natural livre da autoidentidade, da mácula do ego. Se houvesse alguma autoidentidade, não seria o Coração Espiritual, seria? Vocês sentir-se-iam especiais. Haveria alguma forma de autoimportância a ser sentida e expressa. E eu tenho certeza que a grande maioria de vocês concordaria comigo quando digo que se há uma qualidade que vocês portugueses não têm em abundância é a autoimportância, exceto talvez quando se trata de futebol! Pelo contrário, vocês portugueses são muito orgulhosos e teimosos em manter o vosso profundo complexo de inferioridade… Falarei mais sobre isso depois!

Então, porque este Coração Espiritual é sentido intuitivamente pela maioria de vocês portugueses mas vocês não têm ideia disso, há uma qualidade de inocência que vocês emanam. Expressa-se na vossa bondade, suavidade e disposição acolhedora. É algo muito infantil em alguns aspectos, uma aura imaculada que vocês irradiam, mas com isso não quero dizer que se expressa apenas como ingenuidade. Ela mostra-se não apenas nas coisas que vocês dizem e fazem, mas também brilha muito tangivelmente através dos vossos olhos castanhos escuros - quando vocês não estão fixados em algum tipo de problema! O mais próximo que posso chegar para descrevê-lo em palavras é uma pureza de coração, ou talvez mais precisamente, a pureza do Coração Universal que se expressa em todos os tipos de formas quintessencialmente portuguesas. Como estrangeiro, sinto que é uma grande bênção estar perto de portugueses, e sinto que muitas dessas qualidades que vocês têm são extremamente necessárias no nosso mundo dividido e em dificuldades nos dias de hoje. É por isso que eu quero te contar sobre isso.

Este livro chama-se Em Busca da Alma Portuguesa, então o que quero dizer com isso? Uma maneira de transmitir e entender a condição humana é que somos todos compostos de três camadas. A primeira camada é a mais óbvia e visível. É a expressão das nossas personalidades individuais que são todas únicas. Essa camada de quem somos tem um nome e uma história pessoal e um círculo de relações. É a camada que normalmente presumimos ser. A segunda camada é onde entra o que chamo de "alma". A nossa alma é a essência mais profunda de quem somos como indivíduos, mas é mais profunda que a nossa personalidade. Se pensares nas pessoas que conheces bem, terás uma noção dessa camada de alma nelas. Sabes que há mais neles do que a sua personalidade ou personalidade social, que pode ser feliz um dia e triste no dia seguinte. Por baixo dos humores e expressões flutuantes, também tens uma noção do seu caráter essencial. De fato, quando dizemos que alguém tem um caráter forte, também estamos a dizer que essa pessoa tem uma alma forte. É uma dimensão mais consistente e geralmente mais em contato com valores mais profundos como integridade, coragem, perseverança e amor.

O que estou a chamar de "alma" também transcende a nossa individualidade, pois tem uma dimensão cultural mais ampla, que poderíamos chamar de "Alma" com A maiúsculo. Cada cultura apresenta características particulares que estão profundamente enraizadas na sua psique coletiva. As características externas podem ser identificadas nas tradições culturais, por exemplo, mas são as características internas que tipificam o que quero dizer com essa "Alma" cultural. Estou a apontar para os valores fundamentais e a disposição das pessoas. Uma metáfora útil para visualizar isso é pensar no sistema operacional de um computador. Todos os aplicativos e programas no computador são os padrões e permutações de nossa primeira camada, a nossa personalidade única. O sistema operacional é a nossa segunda camada, mas é composto não apenas da nossa alma individual, mas também é parte integrante da Alma cultural. Nesta metáfora, a terceira e mais profunda camada – o disco rígido do computador – é o que já descrevi como o Coração Espiritual Universal – sem o qual a alma ou personalidade não poderia existir. De fato, poderíamos dizer que a alma individual e a Alma cultural emergem do Coração Espiritual Universal e que a personalidade individual emerge da Alma. Nesse entendimento, no âmago mais profundo do nosso ser – além e antes de todos os aplicativos e programas culturais e individuais – somos todos iguais. Somos todos Uma Consciência, Um Ser, Um Coração e já estamos juntos nessa Unidade Primária.

A minha experiência com vocês portugueses é que vossa Alma cultural – a vossa segunda camada – é muito porosa para a terceira e mais profunda camada do Coração Universal. A vossa Alma inclina-se mais para o polo do Coração Universal do que para o polo da personalidade individual e do ego. É por isso que vos acho tão fascinantes e atraentes como Povo. Posso dizer que certamente nunca experimentei nada perto disso crescendo em Inglaterra! Nunca me senti em casa em Inglaterra e durante toda a minha vida adulta, nem desde que terminei a universidade e morei e viajei em vários países, vivi em comunidades internacionais, e posso dizer que, até onde minha experiência vai, o que transparece em vocês portugueses é algo muito raro no mundo, e principalmente no mundo ocidental. Então, mesmo que aches que estou louco neste momento, não estás um bocadinho curioso sobre onde quero chegar? Espero que sim. E acho importante ter em conta que este livro sobre a minha Busca da Alma Portuguesa surge da curiosidade, perspetivas e vivências de um estrangeiro a viajar que ama profundamente e está muito feliz por chamar Portugal de "Casa" com um C maiúsculo. Tanto que hoje em dia, quando alguém me pergunta de onde sou, invariavelmente respondo "sou meio-português".

To The People of the Heart

I want to tell you something. Something very important. It's about you – the Portuguese - but it's also something that could have great implications for the whole world. It's about humanity and it's about the time we are living in right now, but it's also about the future – the future evolution of our collective global consciousness and culture. I know that's a "big idea" and you generally like to keep things small, but hang in there with me because I think you are going to enjoy this, even if you think I'm crazy and end up completely disagreeing with me.


Before I came to live in Portugal in 2007 at the age of forty-two I had never met a single Portuguese. Fast-forward fifteen years to the present in 2022 and I feel very blessed to have a wide circle of Portuguese friends and students and, most recently, a beautiful Portuguese girlfriend. The past fifteen years have been the happiest and most creative of my life and I don't believe that it could have happened anywhere else. That miraculous unfolding has been, and still is, deeply intertwined with an undeniable truth that impresses itself on my being more deeply everyday.

That truth is that you Portuguese are, what I like to call, "People Of The Heart". And I say Heart with a capital H, because I don't just mean the emotional, sentimental heart, although you Portuguese have plenty of that (especially when it comes to that quintessential and untranslatable cultural characteristic called Saudade). By Heart with a capital H I mean your innate capacity to feel and intuit the Spiritual Heart that transcends and includes all of our individualities and our relative existence here in time and space. Of course that Spiritual Heart is Universal and it's the intrinsic essence of every human being. It's the source of all that is Good, True and Beautiful and its Nature is Love. Some people call it God, but it really doesn't matter whether you believe in God or not to get a sense of what I mean by the Spiritual Heart. Interestingly I was raised a Catholic and rejected that religious belief system in my adolescence when I began seeking for experiential answers to the big questions of life; Who am I? and Why am I here? But nowadays, having discovered some big answers to those big questions, I'm more than comfortable with the notion of God. In fact living in the north of Portugal is leading me to a deeper appreciation of my Catholic roots. I just don't relate to God as being "out there" on the edge of the universe somewhere, separate from this world or myself. Rather He (or She!) is the Universal Heart and Ground of Everything that Is. Jesus apparently said that, "The Father and I are One", and we've all heard the admonition from John's Gospel that "God is Love", well that's good enough description for me.

If you've stayed with me this far you are probably wondering, "well, if this Spiritual Heart is Universal then why is he saying that we – the Portuguese – are the people of the Heart? There's nothing special about us, right?" I'm saying that because in my experience you Portuguese in general have a way of being, a natural unselfconscious inclination, which emanates from this Heart in a way that is unique. By "unique" I do not mean that you Portuguese are "special" and therefore "superior" in any sense. I mean that by tendency you express particular qualities of this Universal Heart in a way that is quite unique in the world. And don't be surprised if you have no idea what I'm talking about, that's quite normal, because the vast majority of you have no idea about it. In a way it's a beautiful thing that you don't have any idea about it, that you have no self-consciousness about it. That makes your natural expression of it free of self-identity, of the taint of ego. If there were any self-identity then it wouldn't be the Spiritual Heart would it? You would feel special. There would be some form of self-importance being felt and expressed. And I'm sure that

the vast majority of you would agree with me when I say that if there is one quality that you Portuguese don't have in abundance it's self-importance, except perhaps when it comes to football! On the contrary, you Portuguese are very proud and stubborn about holding onto of your deep inferiority complex…more about that later!

So because this Spiritual Heart is intuitively felt by most of you Portuguese but you have no idea about it, there is a quality of innocence that you emanate. It expresses itself in your kindness, your softness, and your welcoming disposition. It's something very child-like in some ways, an unsullied aura that you radiate, but by that I don't mean that is only expresses itself as naiveté. It shows itself not only in what you say and do, it also shines very tangibly through your dark brown eyes - when you are not fixated on some kind of problem that is! The closest I can come to describe it in words is a purity of heart, or perhaps more accurately, the purity of The Universal Heart that gets expressed in all kinds of quintessentially Portuguese ways. As a foreigner I experience it as a great blessing to be around Portuguese people, and I feel that so many of these qualities that you have are sorely needed in our struggling and divided world these days. That's why I want to tell you about it.

This book is called In Search of the Portuguese Soul, so what do I mean by that? One way to convey and understand the human condition is that we are all composed of three layers. The first layer is the most obvious and visible. It's the expression of our individual personalities that are all unique. This layer of who we are has a name and a personal history and a circle of relations. It's the layer that we usually presume ourselves to be. The second layer is where what I am calling "soul" comes in. Our soul is the deepest essence of who we are as an individual, but it's deeper than our personality. If you think about people you know well you will have a sense of this layer of soul in them. You know that there is more to them than their personality or social persona that might be happy one day and sad the next. Underneath their fluctuating moods and expressions you also have a sense of their essential character. Indeed, when we would say that someone has a strong character we are also saying that they have a strong soul. It's a dimension that is more consistent and usually more in touch with deeper values like integrity, courage, perseverance and love.

What I am calling the "soul" also transcends our individuality for it has a wider cultural dimension, which we could call "Soul" with a capital S. Every culture exhibits particular characteristics that are deeply embedded in its collective psyche. The external characteristics can be identified in cultural traditions for example, but it is the inner characteristics that typify what I am meaning by this cultural "Soul". I'm pointing to the fundamental values and disposition of the people. One useful metaphor to envision this is to think of it like the operating system on a computer. All the apps and programs on the computer are the patterns and permutations of our first layer, our unique personality. The operating system is our second layer, but it's made up not only of our individual soul, it's also part and parcel of the cultural Soul. In this metaphor then the third and deepest layer – the hard drive of the computer - is what I described already as the Universal Spiritual Heart - without which the soul or personality could not exist. Indeed we could say that the individual and cultural Soul emerges out of the Universal Spiritual Heart and that the individual personality emerges out of the Soul. In this understanding at the deepest core of our being – beyond and prior to all the individual apps and cultural programs - we are all the same. We are all One Consciousness, One Being, One Heart and we are already together in that Prior Unity.

My experience of you Portuguese is that your cultural Soul – your second layer – is very porous to the third and deepest layer of the Universal Heart. Your Soul leans more to the pole of the Universal Heart than to the pole of the individuating personality and ego. This is why I find you so fascinating and attractive as a People. I certainly never experienced anything close to it growing up in England I can tell you! I never felt at home in England and for all my adult life since finishing university I've lived and traveled in several countries, and also lived in international communities, and I can tell you that, as far as my experience goes, what shines through you Portuguese is something very rare in the world, and especially the Western world. So even if you think I'm crazy at this point aren't you just a little bit curious about what I'm getting at? I hope so. And I think it's important to bear in mind that this book about my Search for the Portuguese Soul comes from the curiosity, perspectives and lived experience of a well-traveled foreigner who loves you deeply and is very happy to call Portugal "Home" with a capital H, such that these days, when someone asks me where I'm from, I invariably say "I'm half-Portuguese".