Uma Nova Época de Descobrimentos

Está a fazer um ano que escrevi um artigo para o Evolusa intitulado “O medo de destaque, medo de sobressair”. Neste artigo partilhei a minha experiência e entendimento sobre este condicionalismo português de nos acharmos inferiores; um medo residual que está enraizado na nossa cultura que inibe e boicota uma expressão livre, criativa, confiante e genuína.

Indo um pouco mais fundo na forma como este medo se manifesta na relação entre pessoas, podemos verificar que para além do boicote à autoexpressão do nosso potencial criativo, este complexo de inferioridade tende a projetar, julgar e encontrar “falhas e erros” em quem ousa arriscar, confiar e manifestar grandes feitos quer individual quer coletivamente. Trata-se de facto de um esforço contínuo e desgastante, através de um foco sistemático no problema – o de resistir e não abraçar com autoestima e altruísmo as capacidades e qualidades manifestadas por outros seres humanos bem próximos de nós e em quem nos podemos reconhecer. Existe a tendência profunda em achar que se alguém faz algo fantástico, isso significa que eu estou a fazer algo de errado.

Hoje, passado um ano, olhando para a emergência de Portugal num contexto internacional/global, torna-se evidente como esta ideia ainda tão profundamente enraizada na nossa cultura não é mais do que uma crença cega que subsiste devido a uma insistência coletiva em velhos hábitos e padrões. Neste sentido, é fundamental, reconhecer que esta “caixa”, que insistimos em carregar, não ressoa nem tem expressão numa realidade bem diferente que está a surgir neste momento.

2017 está a ser um ano em que se está a dar continuidade ao que de muito positivo e significativo aconteceu em Portugal e através de Portugal em 2016. Em diferentes áreas e com diferentes interpretes, temos (e)levado o nome de Portugal aos 4 cantos do mundo, expressando valor, potencial, criatividade com uma impressão digital e identidade muito próprias. Esta reflexão nada tema ver com um espírito ou caráter de ordem nacionalista ou patriótica, mas sim, com o reconhecimento atento de que estamos a sair de um período de dormência, apatia e anestesia generalizadas. Após um período de mortificação causado por anos de inquisição e de ditadura, que décadas depois, ainda nos marcam de uma forma que não estamos plenamente conscientes, (re)surge, em contraste, um movimento de expansão, que se expressa através de uma vontade em ir para além do conhecido.

Portugal, através da sua seleção nacional, foi campeão europeu de futebol; uma conquista que fica na história e que só foi possível devido à crença, força e vontade do seu treinador e respetivos jogadores. Questiono quantas pessoas em Portugal, somadas aos milhões de portugueses espalhados pelo mundo, acreditariam que tal feito seria possível?

António Guterres foi eleito secretário geral da ONU num processo eleitoral para esta função neste organismo sem precedentes. É bom lembrar que se tratou de uma escolha unânime dos membros do Conselho de Segurança, num processo de eleição que envolveu 6 votações, sendo que em todas elas António Guterres foi vencedor.

No dia 13 de maio o Papa veio a Portugal sendo acolhido por mais de um milhão de pessoas que se reuniram para a celebração dos 100 anos da primeira aparição de Nossa Senhora em Fátima. Foi um momento único; um ato de fé e devoção de massas que não pode passar despercebido.

No mesmo dia em que o Papa nos visitou, Salvador Sobral venceu o festival da Eurovisão. Volta-se a fazer história e mais uma vez, em menos de um ano, Portugal volta a ganhar uma grande projeção através de um dos concursos mais mediáticos de música internacional. Ao olharmos para estes acontecimentos podemos sempre dizer que têm uma importância relativa ou que não são grandes indicadores, mas existe algo comum entre eles que merece reflexão.

É importante também incluir nesta fotografia o facto de neste momento Portugal ser visto como um destino de excelência em todo o mundo tendo sido considerado de acordo com um estudo internacional o 5º país mais seguro do mundo. Não é por isso alheio o fenómeno crescente de cada vez mais estrangeiros decidirem residir em Portugal; resumir as razões deste movimento ao clima, à gastronomia e ao baixo custo de vida (em comparação com o da Europa Central e do Norte e América) é manifestamente pouco para podermos ter uma perspetiva maior.

Estes são alguns exemplos de que algo profundamente cativante está a acontecer neste momento neste país através de dois grandes movimentos a acontecerem em simultâneo: o primeiro, representa expansão, conquista, ir para territórios desconhecidos num espirito de aventura, compromisso e sentido de dever; o segundo cria pontes, inclui, integra e abre portas num espírito de abertura e recetividade.

Estes dois movimentos possibilitam que estejam a surgir em Portugal vários projetos ligados à permacultura, movimentos de transição, comunidades de orientação espiritual, grupos com foco e atenção no desenvolvimento do potencial humano que preparam caminho para uma mudança que já está a acontecer – é já uma realidade o compromisso de várias pessoas em viverem para além do aparente sentido de limitação, estando lançadas as sementes para o alargar de um coletivo desperto, sensível e plenamente envolvido numa revolução na forma de viver e agir no mundo.

Tal como diz Peter Bampton, “estamos a entrar numa nova época de descobrimentos, mas não lá fora no mundo; uma nova época de descobrimentos de potencial humano”.

Pedro Morais

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