Evolução de uma Cinderela – As histórias de encantar passaram à história!

Era uma vez…

 

Assim começam todas as histórias de encantar. Essas histórias que sempre me fascinaram e que preencheram o meu imaginário e as prateleiras da minha biblioteca.
Desde que sou pequena, e desde que me lembro, que em casa dos meus pais, os livros eram parte essencial das nossas vidas. O livro é um amigo próximo, com palavras que não só nos tocam, mas que nos ensinam e explicam o que é a vida.

 

 

De todos os livros que eu e o meu irmão tínhamos, os que mais me tocavam eram as típicas histórias de encantar e, em particular, a Cinderela.
Uma menina que desde cedo perdeu a mãe. Educada pelo pai, que mais tarde se casou com outra mulher. Uma madrasta com duas filhas. As três eram o perfeito horror desta menina. Um pesadelo que a Cinderela suportava dia e noite. Vítima da maldade da madrasta e das duas “irmãs”, ela tornou-se numa escrava. Mesmo assim, esforçava-se para fazer um bom trabalho. Boa menina, trabalhadora, simpática, amiga dos animais e das outras pessoas. “Oferecia a outra face, sempre que lhe davam uma bofetada”. Sentia-se injustiçada, mas era preferível não o expressar em alta voz, pois a maldade da madrasta e das “irmãs” poderia crescer e a a sua vida poderia tornar-se num inferno ainda mais sofrível. Um dia, um mensageiro trouxe um convite a sua casa: haveria um baile no castelo, pois o Rei queria encontrar a noiva para o seu filho Príncipe. Todas as jovens solteiras foram convidadas. Claro que, a madrasta e as “irmãs” mantiveram a Cinderela ocupada para que ela não pudesse ir ao baile.
O resto da história, todos sabem, certo? Ela foi ao baile, dançou com o Príncipe, perdeu o sapato, ele procurou a dona do sapato, apaixonaram-se e viveram felizes para sempre. Ah, não esqueçam do importante pormenor: o Príncipe chegou com o sapato de cristal na mão, vindo num cavalo branco.

 

 

Esta história correu no meu sangue durante toda a minha vida. Esta sempre foi a minha esperança e realidade. O meu modelo; acrescido ao facto de viver numa sociedade maioritariamente tradicional. Quais eram os meus objectivos principais de vida? Estudar na Universidade, arranjar um bom emprego, ter um bom homem ao meu lado, casar, comprar casa e constituir uma família com um ou dois filhos. Não esquecendo claro, que seria importante manter um trabalho estável, de preferência na função pública. E sempre com a esperança que o meu príncipe aparecesse à minha porta montado num cavalo; até poderia ser castanho ou preto, mas o cavalo, no fundo no fundo, sempre esteve na minha lista de vida perfeita (irreal, ah?)!

 

 

Mas o mais interessante é que mesmo sendo o modelo que eu seguia, percebi que isso não era o que eu queria. No entanto, insisti nestas ideias. Investi sempre em ter um excelente currículo (extenso e variado), em trabalhar com muito afinco, procurando ser perfeita em tudo o que fazia. Tinha mais do que um emprego para poder ganhar muito dinheiro e procurava insistentemente em todos os homens que conhecia, o “meu Príncipe encantado”. Eu era a perfeita Cinderela! Anulei qualquer desejo profundo que eu tivesse para poder preencher um ideal social, patriacal, familiar e pessoal. Não expressava a minha opinião. Trabalhava mais do que o normal, para poder preencher e corrobar a auto-imagem de pessoa esforçada que só consegue o que quer quando se esforça acima da média.
No fundo, todos estes desejos e objectivos não têm nada de errado. O importante foi perceber que eu os colocava na minha lista de itens para atingir a perfeição, porque sempre achei que algo estava errado comigo. Que eu não merecia nada disto, porque nem sequer merecia estar no mundo. Porque sempre achei que algo me faltava, que não era ninguém sozinha. Que precisava de um homem ao meu lado para, não só me completar, mas também para me tornar alguém brilhante ou apenas alguém que valesse a pena estar no mundo com algum valor.
Ao fazer algumas mudanças na minha vida, incluindo viver aqui na Quinta da Mizarela, entregue a uma vida que assenta no valor de transcender o ego (um movimento/acção que insiste que nós somos separados e limitados), percebi que vivia com muito peso, com muita negritude e com pouca clareza de quem eu essencialmente sou e do que quero.

 

Afinal, quem sou eu eu e o que faço aqui?
Foram as perguntas essenciais para eu largar qualquer apego a certezas, entregando-me ao desconhecido diário. E neste desconhecido, desapeguei-me também destas questões e ideias de como a vida deveria ser.
Estava, nesse momento, de braços abertos para a vida, sem ideias, expectativas e apegos. Aberta a uma existência de serviço a algo maior do que eu. E assim, descobri que quanto mais a sensação de ser separada ficava visível, mais eu percebia que esta era irreal. O desapego vindo deste processo evolutivo é extraordinariamente libertador! Mas é também um processo contínuo de desapego.

 

Ao escolher viver aqui na Quinta da Mizarela, respeitando o Grande Sim a crescer em mim, senti o chamamento para uma Vida Desperta. Conheci pessoas novas e uma nova forma de ser. E aí, comecei a questionar a minha visão de relacionamentos amorosos. Mesmo depois de perceber que não queria ser mais a “Cinderela”, o apego a este síndrome estava muito presente. Principalmente quando comecei a passar mais tempo com outra pessoa que começou o programa de voluntariado ao mesmo tempo que eu: o David Williams. Era evidente que ambos ficamos interessados um no outro de uma forma afectuosa. De tal maneira, que ambos colocamos a hipótese de iniciar um relacionamento amoroso. Seria este o meu príncipe encantado? – pensava eu. O meu coração dizia que sim, o meu corpo dizia que sim e a minha mente também! Mas o que era diferente agora é que os valores pelos quais ambos vivíamos não eram os mesmos de antigamente, e daí, a escolha mais evolucionária para ambos e para a comunidade era a de continuarmos a ser voluntários na Quinta, cada um no seu processo e sem qualquer relacionamento amoroso à mistura.

 

Mesmo duvidando desta decisão, passadas algumas semanas, foi evidente para mim o quão fantástico este processo estava a ser. Finalmente, tomei uma decisão vinda de um lugar de consciência profunda, com a ajuda das pessoas que viviam comigo na comunidade. Uma decisão que não foi baseada em condicionamentos bem intrínsicos em mim. Estes que me levavam a insistir que eu deveria responder a impulsos biológicos, sociais, familiares, patriarcais, de género, Portugueses e outros vindos de histórias pessoais. Eu estava mais interessada em perceber quem era na realidade, em profundidade e em transcender movimentos egóicos, sem me perder em desejos que na realidade me anulavam. No fundo, estava mais interessada em me entregar a uma vida de serviço.

 

Estaria a tornar-me numa freira?

 

 

Na realidade, não! Apenas me estava a entregar à vida e a responder a um impulso que não mais era do que a própria evolução.

 

7 meses passaram em que todos na Quinta nos apoiram nesta decisão;  isso implicava um intenso trabalho de ver os impulsos internos vindos dos condicionamentos que eu referi acima, e de constante interesse em evoluir num todo. No meio deste tempo, apercebi-me que achava que não era “material” para estar num relacionamento. Não era bonita o suficiente, não tinha experiência, não constituia o ideal de mulher “casadoira”. E de repente, eureka! Se eu estive num relacionamento comigo durante trinte e tal anos, outros relacionamentos falhados, traumas, ideias e auto-imagens que me denegriam eram completamente irreais! Eu sou quem sou, sem me apegar a estas histórias!

 

A partir daí, a entrega a este impulso evolucionário foi ainda mais evidente. A constante evolução no Grupo de Mulheres e o interesse em algo maior empoderou-me, de uma forma autónoma e íntegra.
Eu não preciso de ninguém para me completar, porque eu não estou nem sou incompleta. No entanto, não negava o facto de que intuia que eu e o David eramos mais juntos do que separados. Que o nosso potencial de entrega era magnificado, se estivéssemos num relacionamento amoroso. E assim com a coragem vinda deste empoderamento vindo de uma certeza profunda que não havia qualquer apego a uma resposta, pedi ao David para nos comprometermos num relacionamento. No momento em que ele me disse não, pude perceber que independentemente desssa resposta eu fiz o mais acertado, o mais evolucionário. Eu segui aquilo que queria, não para mim, mas para este todo a que me entreguei.
Demorou um mês para o David perceber o mesmo que eu, e assim, em Agosto, iniciamos o nosso relacionamento.
Nesta fotografia, festejamos em comunidade, o nosso primeiro aniversário: foi alvo de notícia na newsletter e tudo!

 

 

Crescemos e evoluímos juntos. Eu tornei-me numa verdadeira Mullher e o David num verdadeiro Homem.
E sempre seguindo este chamamento que nos impulsiona a evoluir, havia algo mais a fazer/ser. Durante o meu retiro solitário de 30 dias, ambos passamos pela mesma experiência: o casamento era o próximo passo no nosso relacionamento. E mais uma vez, percebemos que não era apenas para nós, mas que este passo era parte integrante desta nova cultura que todos estamos a criar no Awakened Life Project.

 

Quando fui pedida em casamento, pude ver, tal como filme, todas as auto-imagens de uma baixa auto-estima a aparecerem à minha frente! Mas, conscientemente, e sabendo que apenas são imagens limitantes, não querendo ser arrogante ao ponto de ignorar e não receber o que me estava a ser dado naquele momento, não podia responder outra coisa que não: SIM, aceito! E para ter a cereja em cima do bolo, não só fui pedida em casamento nesta vez, mas também em frente aos nossos pais, com um anel de família.

 

1 ano depois de iniciarmos o nosso relacionamento amoroso, casámos.
Optamos por fazer 2 cerimónias: uma espiritual aqui na Quinta e a legal no Porto para que a minha avó pudesse participar desta celebração.
Ambas as cerimónias foram uma celebração não só do nosso amor, mas do amor pela vida, pela evolução e por algo maior, que, na verdade, transcende qualquer explicação.
A magia de 3 dias em que ambos expressamos um ao outro e à frente de amigos e familiares que estamos mais interessados em evoluir em amor pela vida, do que em qualquer interesse pessoal que seja vindo desejos egoístas e puramente limitantes, criando separação entre ambos e entre nós os dois e o Mundo.

Elevei a minha voz, não só nestes 3 dias de cerimónia, mas para todo o sempre.

 

 

Sim, deixei de estar apegada ao síndrome da Cinderela! Fui descalça ao meu casamento, e o David não teve de experimentar o sapato perdido no meu pé. E não houve qualquer cavalo nesta história! O nosso casamento foi o espelho do que mais valorizamos e isso implicou também a presença de várias tradições Portuguesas.

 

Tive a felicidade de escolher uma história que deixou de encantar, mas que passou a ser verdadeira. Porque a magia está na realidade em concretizar sonhos que vêm de uma profundidade consciente que é mágica, a partir do momento em que a pessoa deixa de ter expectativas, mas passa a responder à vida.

 

“To Love, to Life, to Freedom” – Ao amor, à Vida, à Liberdade.

 

 

Que mais há além do serviço à vida?
Raquel Perdigão

2 thoughts on “Evolução de uma Cinderela – As histórias de encantar passaram à história!

Leave a Reply