O que é a evolução da cultura e como acontece?

Nos dias de hoje quase toda a gente ouviu falar sobre evolução e para muitos não há dúvidas de que é real. A ciência explica a evolução do Universo, com o seu início no Big-Bang, uma inimaginável explosão de energia, que ao longo de mais de 14 mil milhões de anos deu origem à matéria, depois à vida e, mais recentemente, à mente e consciência. E se ao nível físico e biológico houve já muito progresso no nosso entendimento dessa evolução, ao nível da cultura parece haver ainda um profundo desconhecimento de como essa evolução se processa.

Ao longo de muitas gerações, @s filh@s têm procurado ir para além daquilo que os pais conquistaram, essencialmente numa procura de independência, mas também respondendo a um impulso que quer sempre ir mais longe. Mas que impulso é esse? É o simples, mas poderoso, impulso para evoluir, de ir para além dos limites impostos e imaginados, de descobrir novos territórios físicos, mas também na mente e no espírito. Esse impulso evolutivo tem estado sempre presente, desde a origem do tempo e do espaço e, consciente ou inconscientemente, é ele que nos move. O impulso de criar, de inovar, de ir para além de todas as fronteiras, leva-nos a viajar fora de nós (neste planeta e fora dele), mas também dentro de nós, à descoberta de quem realmente somos e do nosso propósito nesta maravilhosa existência.

Mas então e a cultura, o que é, para que serve e como evolui? A cultura é a forma como nos relacionamos uns com os outros, são os valores que partilhamos e que servem de base a tudo o que fazemos, é a forma como nos expressamos a vários níveis e são as linguagens que usamos para comunicar. Através da cultura que um povo expressa podemos observar não só os seus interesses e desafios, como também os níveis do seu desenvolvimento, enquanto seres humanos em evolução. Por exemplo, observando certas tribos que vivem em locais mais remotos ainda hoje, podemos perceber como a maioria da humanidade vivia e se relacionava no passado. E ao observar os primeiros estágios de desenvolvimento de um indivíduo numa sociedade moderna, podemos também reconhecer estágios mais antigos na evolução da cultura humana. Ou seja, assim como a filogenia (estudo da relação evolutiva entre espécies) e a ontogenia (estudo do desenvolvimento de um organismo) nos mostram a evolução física da nossa espécie, através do desenvolvimento embrionário e nos primeiros anos de vida em cada indivíduo, também a antropologia nos ensina a evolução da cultura através dos diferentes povos que existiram no passado, bem como através de alguns que ainda hoje existem. Assim sendo, e tal como acontece com os nossos corpos e com tudo o que nos rodeia, também a cultura tem evoluído ao longo dos milénios em que a civilização humana tem povoado este lindíssimo planeta azul. Uma não está separada da outra e ambas expressões  dessa evolução cumprem um mesmo propósito, o de manifestar a perfeição de todo este Processo maravilhoso e imensurável do qual fazemos parte.

Desde que faço parte do Projecto Vida Desperta, há pouco mais de 6 anos, que a cultura e a sua evolução têm ganho maior relevância no meu dia-a-dia. Através do crescente interesse e dedicação de um maior número de pessoas, não só em Portugal, mas um pouco por todo o mundo, tem sido possível explorarmos cada vez mais em conjunto as diferentes facetas da evolução consciente da nossa cultura. A palavra “consciente” assume aqui um significado muito importante, pois procuramos ter sempre presentes as motivações das nossas escolhas e acções, em cada instante, bem como das suas implicações. E porquê? Porque à medida que nos vamos conhecendo melhor, a nós próprios e uns aos outros, vamos percebendo que ainda fazemos escolhas condicionadas pelo nosso passado e pelas nossas experiências, que por sua vez são o resultado das experiências dos nossos antepassados. E enquanto essas escolhas forem feitas de uma forma pouco consciente, não temos verdadeiramente uma oportunidade para as transcender, para fazer, em consciência uma escolha livre, não limitada por aquilo que pensamos ou acreditamos ser real.

Uma das formas mais interessantes e com maior potencial em fazer este “trabalho” de crescimento e evolução, mas também mais intensa e desafiadora, é a vida em comunidade. Essa foi uma das razões que me levou a mim e à minha esposa Teresa, a querermos viver juntamente com outras pessoas, também interessadas em criar uma nova cultura, com base na confiança, na transparência e num maior cuidado pelo todo, indo muito para além dos nossos interesses pessoais, desejos, medos e apegos. Isso não significa que o medo de arriscar e avançar no desconhecido deixam imediatamente de estar presentes, apenas porque agora estamos mais interessados em transcender o que nos limita e em evoluir, mas o facto desse medo poder ainda estar presente já não nos impede de fazer uma outra escolha, mais consciente e livre, em cada instante. Nesta cultura que juntos estamos a criar, não só valorizamos a autenticidade em cada indivíduo, como apoiamos a melhor parte de cada um de nós, dando cada vez menos espaço e atenção à parte de nós que apenas procura manter o conforto e a segurança do conhecido.

Desta forma, parte do “trabalho” que fazemos em conjunto consiste em observar, questionar e explorar os nossos padrões enquanto homens/mulheres/pais/filhos/etc, mas também as “dinâmicas” entre estas diferentes combinações. Tem sido muito revelador olharmos para os nossos padrões e relacionamentos de uma forma impessoal, ou seja, perceber que praticamente tudo aquilo que se passa “dentro” de mim e que parece ser apenas “meu”, também acontece “dentro do outro”. Todos sentimos medos, desejos, desafios, alegrias etc., que nos parecem muito pessoais, mas serão essas experiências de facto únicas? Haverá alguma diferença entre o “meu” medo e o “teu” medo, para além do objecto ao qual esse medo se refere? Será que o medo de aranhas, o medo das alturas, ou mesmo o medo de perdermos a vida são assim tão diferentes? Todos eles resultam da nossa identificação exclusiva com o nosso corpo e mente, mas será que somos apenas isso, ou haverá algo mais profundo que não é diferente de pessoa para pessoa? Todos vivemos dias em que nos sentimos tristes ou felizes, mas será que quem realmente somos muda com cada uma dessas experiências? O que temos descoberto é que quanto menos atenção damos à forma como nos sentimos e escolhemos agir de uma forma menos condicionada e limitada por esses sentimentos, criamos oportunidades para sermos genuínos e manifestarmos algo novo, em vez de constantemente repetirmos os mesmos hábitos e padrões, muitos dos quais nos mantêm infelizes.

Um exemplo desta nova cultura que já estamos a criar juntos é o facto de termos vindo todos para a Holanda, por um período de 5 semanas, pois este é o país natal da família que presentemente vive connosco. O facto de termos vindo essencialmente para trabalhar, mas de o termos feito em família, como sendo uma “comunidade nómada“, mostra que o “trabalho” mais importante para nós é o de crescimento e evolução. Ao não querermos estar separados fisicamente por 2-3 meses, e de termos escolhido apoiarmo-nos mutuamente nas diferentes facetas da nossa vida, faz com que eu e a Teresa tenhamos escolhido estar longe de casa e do conforto do que já conhecemos, e embarcar nesta aventura num país quase desconhecido para mim. Ainda assim, o sentimento de “estar em casa” está muito vivo e presente em todos nós, pois apesar das diferenças na paisagem e dos diferentes hábitos desta cultura, continuamos todos juntos. Ao estar em contacto com uma cultura em certos aspectos tão diferente da nossa, tem-me feito perceber como cresci com uma atitude perante a vida tão baseada na escassez e no medo. Para mim é tão natural poupar e aproveitar algumas das coisas que aqui na Holanda facilmente se dão ou deitam fora, que me parece difícil acreditar como é possível haver tamanhas discrepâncias na maneira de pensar e agir em diferentes culturas. Ambas resultam das diferentes circunstâncias e escolhas no passado e no presente, mas em ambas há ainda muitas acções que são inconscientes nas suas motivações. Esta possibilidade de viver nesta cultura em certos aspectos tão diferente da qual eu cresci, realça ainda mais a importância de examinar o que nos move e de querer fazer escolhas mais conscientes e livres.

Tudo isto me faz querer olhar para cada nova experiência com mais interesse, abertura e curiosidade, pois me permite ver com mais clareza onde ainda me estou a limitar nas minhas escolhas e ideias. Isso abre espaço para o novo e dá origem a muitas perguntas: Como será a expressão de uma cultura livre do passado, não tão condicionada pelos medos, pressões e competitividade da nossa sociedade actual, mas mantendo presente a experiência que adquirimos ao longo do caminho? Qual o potencial de cada indivíduo, e do colectivo, numa cultura mais interessada em evoluir, do que em manter o status quo, especialmente quando já não serve os propósitos inicialmente estabelecidos? Se também sentes curiosidade e paixão em responder a estas e outras perguntas, mantém-te atento ao Evolusa e participa neste movimento de descoberta e evolução!

Ricardo Gonçalves

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