30 Dias em Retiro – Despertar para a família

No dia 11 de Dezembro de 2016 comecei um retiro solitário de meditação e silêncio que acabaria 1 mês depois, a 11 de Janeiro de 2017. Há quase 2 anos que eu sabia que o iria fazer e 2 anos foi o tempo que levou a certeza a tornar-se tão certa que a escolha já não era uma possibilidade. Tanto aconteceu nestes 30 dias que precisaria de outros 30 para os digerir e uma vida para os contar, vivendo-os. No entanto, quero escrever agora sobre como este retiro abriu-me à minha família.

Este período foi escolhido por ser a altura do ano em que, profissionalmente, iria ter menos solicitações e compromissos. No aspecto prático, esta foi a minha principal motivação ao escolher a data, os 30 dias do ano mais simples para eu “desaparecer”. O “desaparecimento” em si seria para os que não iam comigo, porque para mim, que fui, “apareci”.

É a minha experiência, ano após ano, que durante a época Natalícia, as festas ajantaradas que gravitam à sua volta e o aquecimento para o Ano Novo, não há reuniões ou telefonemas de urgências urgentes e por outro lado há um sorver cultural generalizado de atenção.

Tinha duas vozes fortes dentro de mim e uma certeza. A certeza era o sentimento tão certo daquele ser o momento para fazer o retiro; uma das vozes concordava com a escolha da altura, fundamentada pela conjuntura festiva; a outra voz que falava-me dos apuros familiares em que me poderia meter. Aquela é também, quase, a única altura do ano em que vejo alguns dos meus familiares, em que primos e amigos emigrantes voltam a casa, em que conheço os novos rebentos e todos nos actualizamos quanto aos sítios, formatos e estados de espírito por onde temos andado.

Não nutro uma ligação, especialmente próxima, aos motivos da celebração em si, ou aos rituais de consumo que a todos assalta, ou sequer às mesas “gordas” em disposição permanente (embora nutra afecto pela Roupa Velha – vegetariana – mesmo fora de época). Tenho para mim esta altura do ano como, isso mesmo, um tempo de afecto. Há algo de muito gratificante em ver a família toda junta, observar e contribuir para o escarcéu de conversas que se sobrepõem e que sobem de volume com o subir da hora e o descer da sobriedade. É a Festa da Família e a presença de todos é uma garantia de que tudo corre normalmente.

No entanto, a vontade assertiva de fazer este retiro fazia dele uma não-escolha. Era meu, era um tempo para mim, era um tempo apenas, algo explorativo, para além de qualquer expectativa que pudesse traçar, para além de lugares comuns revisitados, rotinas ou hábitos.

Em 33 anos não tinha, ainda, faltado a esta celebração familiar e sentia a pressão social e interna de a cumprir, para além de ter todo o prazer em a acompanhar e viver. Assumir a minha decisão, primeiro perante os meus pais, em fazer o retiro requereu alguma coragem, explicar o porquê de o fazer também. Requeria ainda mais coragem contá-lo e explicá-lo aos meus avós. Sentia-me, no entanto, escudada pela minha reputação e historial familiar em não ser propriamente a pessoa mais previsível ou caseira. Contei primeiro aos meus pais e depois aos meus avós e o que aconteceu foi muito curioso de testemunhar, tanto no início como no desenrolar da história até ao início do retiro.

Com os meus pais, senti um apoio sincero à minha escolha e em simultâneo alguma tristeza e receio por ser a única da família a não estar presente, que se manifestava em preocupação. A questão de passar um mês em retiro solitário também lhes provocou alguma confusão, apesar de já estarem habituados a estas explorações pouco comuns. A surpresa para mim veio dos meus avós pela serenidade e positividade com que me responderam: “Estás feliz? É isso que importa”. Se havia alguém a quem não queria causar tristeza por faltar a esta data era a eles e eles deram-me mais do que apoio, deram-me a simplicidade.

Mostrar-me e “contar-me” aos meus pais e avós foi o início de um aproximar afectuoso inesperado. Algo aconteceu neste assumir de escolha e vontade, que suavizou o trato entre nós e ampliou o cuidado. Não esperava que anunciar uma ausência de um mês, quando é suposto estarmos mais presentes, trouxesse tanta cumplicidade e interesse.  Até ao momento em que comecei o retiro, visitei-os a todos mais vezes, ligámo-nos mais e até mais do que a frequência foi a qualidade do estar que se transformou. Entrar assim em retiro, foi como deslizar confiante para a única coisa que me interessava: relaxar profundamente no Agora e deixar a intuição levar-me à exploração dessa entrega.

Nos dias que precederam este retiro, em conversa com amigas que, por várias razões, tinham passado o Natal longe das suas famílias todas referiram a saudade ou solidão que surge na própria noite. Ouvir estes relatos fez emergir alguma nostalgia e receio antecipado de passar uma noite difícil. Ainda assim, o colosso da experiência a que me estava a propôr transcendia qualquer dúvida iminente ou receio de dor.

O retiro começa e a noite da véspera de Natal chega no dia 14 dos 30 dias. Por esta altura já estava muito mergulhada no silêncio ensurdecedor de toda a vida que me envolvia. Estava num yurt numa pequena planície no fundo de um vale estreito e aceso com bichos de toda a espécie, luzes, sombras, riachos e gelo. Este era sem dúvida um dia especial e os meus pais, o meu irmão, os meus 4 avós, o meu companheiro, invadiram-me em força.

Fui assomada por um sentimento de amor tão forte que o corpo parecia não aguentar. Fiquei, sentada a vivê-lo e a ouvi-lo. Sentia o peito a esmorecer e a querer fazer-lhe uma vénia, a ele, ao amor. Dizia-lhe “És bem-vindo e eu escolho ficar contigo”.

Começaram a passear memórias por mim, de pequenos nadas quotidianos familiares. A forma impaciente como por vezes respondo à minha mãe e ao meu pai, o porquê e como isso também me magoa. Vi-os como nunca antes e apreciei-os como nunca antes o havia feito. Vi-os como as pessoas bonitas e íntegras que são, vi-os como nem eles próprios se vêem e senti como responsabilidade minha responder-lhes sempre num reconhecimento dessa integridade. Vi com clareza o amor e cuidado que nutro pelo meu irmão, mesmo vendo-o pouco, e senti a vontade urgente de tornar palpáveis estes sentimentos.

O amor é para ser expressado, ponto final. Para além disto, o amor é para ser expressado e agido sob pena de nos sentirmos sempre incompletos, imperfeitos ou sós. Mais ainda, é da natureza do amor querer-se “espalhar ao comprido”, contagiar e relacionar-se com outros. Surge com tamanha alegria no corpo que abafá-lo depois de o conhecer, parece provocar contusões internas e surtos asmáticos. Ele corre nos braços, na garganta e faísca nos olhos, quer-se dar para além de cálculos de quanto irá receber em troca. É péssimo a matemática.

Em 30 dias de entrega à exploração da minha natureza mais real, muitas ideias caíram redondas, muitos preconceitos tornaram-se visíveis e no fim de contas todos eles funcionam como um travão ao amor, à alegria. O que, primeiro, vi subtilmente, tornou-se grosseiro quando percebi a amplitude das consequências desse travão: reforça e impõe limites a nós próprios e aos outros, vê o mundo etiquetado por categorias e preferências e na verdade toma por realidade a sua própria história orquestrada do mundo.

Perceber as linhas do amor e a sua função não foi fácil. Depois de as reconhecer torna-se mais simples mas mantém-se o desafio de o expressar. Um desafio sem escolha, se não o abafarmos novamente com preconceitos antigos.

O dia e a noite de Natal acabaram por ser esse dia de “estar” com a família, em que me dei ao tempo e ao espaço para receber este sentimento urgente, as memórias e novos entendimentos. “Levo um sorriso preso ao peito”, lia-se no meu diário de bordo ao final do dia. Sorriso que não me larga se eu não largar o que vivi.

Esta experiência mostra-me, outra vez, de como nos relacionamos e vivemos todos bem na diversidade. Isto, quando estou fora do registo de preconceitos subtis ou grosseiros e se me entrego à vontade e curiosidade de ver mais e melhor acima do querer ter razão ou pensar que já sei. Foram 30 dias de uma exploração sincera. Uma exploração de quem não quer, sinceramente, travar mais o amor.

Agora, dois meses depois do retiro, a ligação estreita que nasceu fala mais alto do que qualquer outra invenção que surja para não a seguir, em palavras e actos. Autonomia e amizade, são as qualidades que me assaltam quando penso nos meus pais. Tenho dois novos amigos. Quero descobri-los e conhecê-los para além do papel de “pais” que representaram para mim até agora. Agora, sim, quero mais ouvi-los do que lhes responder ou “educar” e, com isto, também eles me ouvem mais e “me educam” menos.

Sara Silva

 

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