Uma Nova Época de Descobrimentos

Está a fazer um ano que escrevi um artigo para o Evolusa intitulado “O medo de destaque, medo de sobressair”. Neste artigo partilhei a minha experiência e entendimento sobre este condicionalismo português de nos acharmos inferiores; um medo residual que está enraizado na nossa cultura que inibe e boicota uma expressão livre, criativa, confiante e genuína.

Indo um pouco mais fundo na forma como este medo se manifesta na relação entre pessoas, podemos verificar que para além do boicote à autoexpressão do nosso potencial criativo, este complexo de inferioridade tende a projetar, julgar e encontrar “falhas e erros” em quem ousa arriscar, confiar e manifestar grandes feitos quer individual quer coletivamente. Trata-se de facto de um esforço contínuo e desgastante, através de um foco sistemático no problema – o de resistir e não abraçar com autoestima e altruísmo as capacidades e qualidades manifestadas por outros seres humanos bem próximos de nós e em quem nos podemos reconhecer. Existe a tendência profunda em achar que se alguém faz algo fantástico, isso significa que eu estou a fazer algo de errado.

Hoje, passado um ano, olhando para a emergência de Portugal num contexto internacional/global, torna-se evidente como esta ideia ainda tão profundamente enraizada na nossa cultura não é mais do que uma crença cega que subsiste devido a uma insistência coletiva em velhos hábitos e padrões. Neste sentido, é fundamental, reconhecer que esta “caixa”, que insistimos em carregar, não ressoa nem tem expressão numa realidade bem diferente que está a surgir neste momento.

2017 está a ser um ano em que se está a dar continuidade ao que de muito positivo e significativo aconteceu em Portugal e através de Portugal em 2016. Em diferentes áreas e com diferentes interpretes, temos (e)levado o nome de Portugal aos 4 cantos do mundo, expressando valor, potencial, criatividade com uma impressão digital e identidade muito próprias. Esta reflexão nada tema ver com um espírito ou caráter de ordem nacionalista ou patriótica, mas sim, com o reconhecimento atento de que estamos a sair de um período de dormência, apatia e anestesia generalizadas. Após um período de mortificação causado por anos de inquisição e de ditadura, que décadas depois, ainda nos marcam de uma forma que não estamos plenamente conscientes, (re)surge, em contraste, um movimento de expansão, que se expressa através de uma vontade em ir para além do conhecido.

Portugal, através da sua seleção nacional, foi campeão europeu de futebol; uma conquista que fica na história e que só foi possível devido à crença, força e vontade do seu treinador e respetivos jogadores. Questiono quantas pessoas em Portugal, somadas aos milhões de portugueses espalhados pelo mundo, acreditariam que tal feito seria possível?

António Guterres foi eleito secretário geral da ONU num processo eleitoral para esta função neste organismo sem precedentes. É bom lembrar que se tratou de uma escolha unânime dos membros do Conselho de Segurança, num processo de eleição que envolveu 6 votações, sendo que em todas elas António Guterres foi vencedor.

No dia 13 de maio o Papa veio a Portugal sendo acolhido por mais de um milhão de pessoas que se reuniram para a celebração dos 100 anos da primeira aparição de Nossa Senhora em Fátima. Foi um momento único; um ato de fé e devoção de massas que não pode passar despercebido.

No mesmo dia em que o Papa nos visitou, Salvador Sobral venceu o festival da Eurovisão. Volta-se a fazer história e mais uma vez, em menos de um ano, Portugal volta a ganhar uma grande projeção através de um dos concursos mais mediáticos de música internacional. Ao olharmos para estes acontecimentos podemos sempre dizer que têm uma importância relativa ou que não são grandes indicadores, mas existe algo comum entre eles que merece reflexão.

É importante também incluir nesta fotografia o facto de neste momento Portugal ser visto como um destino de excelência em todo o mundo tendo sido considerado de acordo com um estudo internacional o 5º país mais seguro do mundo. Não é por isso alheio o fenómeno crescente de cada vez mais estrangeiros decidirem residir em Portugal; resumir as razões deste movimento ao clima, à gastronomia e ao baixo custo de vida (em comparação com o da Europa Central e do Norte e América) é manifestamente pouco para podermos ter uma perspetiva maior.

Estes são alguns exemplos de que algo profundamente cativante está a acontecer neste momento neste país através de dois grandes movimentos a acontecerem em simultâneo: o primeiro, representa expansão, conquista, ir para territórios desconhecidos num espirito de aventura, compromisso e sentido de dever; o segundo cria pontes, inclui, integra e abre portas num espírito de abertura e recetividade.

Estes dois movimentos possibilitam que estejam a surgir em Portugal vários projetos ligados à permacultura, movimentos de transição, comunidades de orientação espiritual, grupos com foco e atenção no desenvolvimento do potencial humano que preparam caminho para uma mudança que já está a acontecer – é já uma realidade o compromisso de várias pessoas em viverem para além do aparente sentido de limitação, estando lançadas as sementes para o alargar de um coletivo desperto, sensível e plenamente envolvido numa revolução na forma de viver e agir no mundo.

Tal como diz Peter Bampton, “estamos a entrar numa nova época de descobrimentos, mas não lá fora no mundo; uma nova época de descobrimentos de potencial humano”.

Pedro Morais

Evolução de uma Cinderela – As histórias de encantar passaram à história!

Era uma vez…

 

Assim começam todas as histórias de encantar. Essas histórias que sempre me fascinaram e que preencheram o meu imaginário e as prateleiras da minha biblioteca.
Desde que sou pequena, e desde que me lembro, que em casa dos meus pais, os livros eram parte essencial das nossas vidas. O livro é um amigo próximo, com palavras que não só nos tocam, mas que nos ensinam e explicam o que é a vida.

 

 

De todos os livros que eu e o meu irmão tínhamos, os que mais me tocavam eram as típicas histórias de encantar e, em particular, a Cinderela.
Uma menina que desde cedo perdeu a mãe. Educada pelo pai, que mais tarde se casou com outra mulher. Uma madrasta com duas filhas. As três eram o perfeito horror desta menina. Um pesadelo que a Cinderela suportava dia e noite. Vítima da maldade da madrasta e das duas “irmãs”, ela tornou-se numa escrava. Mesmo assim, esforçava-se para fazer um bom trabalho. Boa menina, trabalhadora, simpática, amiga dos animais e das outras pessoas. “Oferecia a outra face, sempre que lhe davam uma bofetada”. Sentia-se injustiçada, mas era preferível não o expressar em alta voz, pois a maldade da madrasta e das “irmãs” poderia crescer e a a sua vida poderia tornar-se num inferno ainda mais sofrível. Um dia, um mensageiro trouxe um convite a sua casa: haveria um baile no castelo, pois o Rei queria encontrar a noiva para o seu filho Príncipe. Todas as jovens solteiras foram convidadas. Claro que, a madrasta e as “irmãs” mantiveram a Cinderela ocupada para que ela não pudesse ir ao baile.
O resto da história, todos sabem, certo? Ela foi ao baile, dançou com o Príncipe, perdeu o sapato, ele procurou a dona do sapato, apaixonaram-se e viveram felizes para sempre. Ah, não esqueçam do importante pormenor: o Príncipe chegou com o sapato de cristal na mão, vindo num cavalo branco.

 

 

Esta história correu no meu sangue durante toda a minha vida. Esta sempre foi a minha esperança e realidade. O meu modelo; acrescido ao facto de viver numa sociedade maioritariamente tradicional. Quais eram os meus objectivos principais de vida? Estudar na Universidade, arranjar um bom emprego, ter um bom homem ao meu lado, casar, comprar casa e constituir uma família com um ou dois filhos. Não esquecendo claro, que seria importante manter um trabalho estável, de preferência na função pública. E sempre com a esperança que o meu príncipe aparecesse à minha porta montado num cavalo; até poderia ser castanho ou preto, mas o cavalo, no fundo no fundo, sempre esteve na minha lista de vida perfeita (irreal, ah?)!

 

 

Mas o mais interessante é que mesmo sendo o modelo que eu seguia, percebi que isso não era o que eu queria. No entanto, insisti nestas ideias. Investi sempre em ter um excelente currículo (extenso e variado), em trabalhar com muito afinco, procurando ser perfeita em tudo o que fazia. Tinha mais do que um emprego para poder ganhar muito dinheiro e procurava insistentemente em todos os homens que conhecia, o “meu Príncipe encantado”. Eu era a perfeita Cinderela! Anulei qualquer desejo profundo que eu tivesse para poder preencher um ideal social, patriacal, familiar e pessoal. Não expressava a minha opinião. Trabalhava mais do que o normal, para poder preencher e corrobar a auto-imagem de pessoa esforçada que só consegue o que quer quando se esforça acima da média.
No fundo, todos estes desejos e objectivos não têm nada de errado. O importante foi perceber que eu os colocava na minha lista de itens para atingir a perfeição, porque sempre achei que algo estava errado comigo. Que eu não merecia nada disto, porque nem sequer merecia estar no mundo. Porque sempre achei que algo me faltava, que não era ninguém sozinha. Que precisava de um homem ao meu lado para, não só me completar, mas também para me tornar alguém brilhante ou apenas alguém que valesse a pena estar no mundo com algum valor.
Ao fazer algumas mudanças na minha vida, incluindo viver aqui na Quinta da Mizarela, entregue a uma vida que assenta no valor de transcender o ego (um movimento/acção que insiste que nós somos separados e limitados), percebi que vivia com muito peso, com muita negritude e com pouca clareza de quem eu essencialmente sou e do que quero.

 

Afinal, quem sou eu eu e o que faço aqui?
Foram as perguntas essenciais para eu largar qualquer apego a certezas, entregando-me ao desconhecido diário. E neste desconhecido, desapeguei-me também destas questões e ideias de como a vida deveria ser.
Estava, nesse momento, de braços abertos para a vida, sem ideias, expectativas e apegos. Aberta a uma existência de serviço a algo maior do que eu. E assim, descobri que quanto mais a sensação de ser separada ficava visível, mais eu percebia que esta era irreal. O desapego vindo deste processo evolutivo é extraordinariamente libertador! Mas é também um processo contínuo de desapego.

 

Ao escolher viver aqui na Quinta da Mizarela, respeitando o Grande Sim a crescer em mim, senti o chamamento para uma Vida Desperta. Conheci pessoas novas e uma nova forma de ser. E aí, comecei a questionar a minha visão de relacionamentos amorosos. Mesmo depois de perceber que não queria ser mais a “Cinderela”, o apego a este síndrome estava muito presente. Principalmente quando comecei a passar mais tempo com outra pessoa que começou o programa de voluntariado ao mesmo tempo que eu: o David Williams. Era evidente que ambos ficamos interessados um no outro de uma forma afectuosa. De tal maneira, que ambos colocamos a hipótese de iniciar um relacionamento amoroso. Seria este o meu príncipe encantado? – pensava eu. O meu coração dizia que sim, o meu corpo dizia que sim e a minha mente também! Mas o que era diferente agora é que os valores pelos quais ambos vivíamos não eram os mesmos de antigamente, e daí, a escolha mais evolucionária para ambos e para a comunidade era a de continuarmos a ser voluntários na Quinta, cada um no seu processo e sem qualquer relacionamento amoroso à mistura.

 

Mesmo duvidando desta decisão, passadas algumas semanas, foi evidente para mim o quão fantástico este processo estava a ser. Finalmente, tomei uma decisão vinda de um lugar de consciência profunda, com a ajuda das pessoas que viviam comigo na comunidade. Uma decisão que não foi baseada em condicionamentos bem intrínsicos em mim. Estes que me levavam a insistir que eu deveria responder a impulsos biológicos, sociais, familiares, patriarcais, de género, Portugueses e outros vindos de histórias pessoais. Eu estava mais interessada em perceber quem era na realidade, em profundidade e em transcender movimentos egóicos, sem me perder em desejos que na realidade me anulavam. No fundo, estava mais interessada em me entregar a uma vida de serviço.

 

Estaria a tornar-me numa freira?

 

 

Na realidade, não! Apenas me estava a entregar à vida e a responder a um impulso que não mais era do que a própria evolução.

 

7 meses passaram em que todos na Quinta nos apoiram nesta decisão;  isso implicava um intenso trabalho de ver os impulsos internos vindos dos condicionamentos que eu referi acima, e de constante interesse em evoluir num todo. No meio deste tempo, apercebi-me que achava que não era “material” para estar num relacionamento. Não era bonita o suficiente, não tinha experiência, não constituia o ideal de mulher “casadoira”. E de repente, eureka! Se eu estive num relacionamento comigo durante trinte e tal anos, outros relacionamentos falhados, traumas, ideias e auto-imagens que me denegriam eram completamente irreais! Eu sou quem sou, sem me apegar a estas histórias!

 

A partir daí, a entrega a este impulso evolucionário foi ainda mais evidente. A constante evolução no Grupo de Mulheres e o interesse em algo maior empoderou-me, de uma forma autónoma e íntegra.
Eu não preciso de ninguém para me completar, porque eu não estou nem sou incompleta. No entanto, não negava o facto de que intuia que eu e o David eramos mais juntos do que separados. Que o nosso potencial de entrega era magnificado, se estivéssemos num relacionamento amoroso. E assim com a coragem vinda deste empoderamento vindo de uma certeza profunda que não havia qualquer apego a uma resposta, pedi ao David para nos comprometermos num relacionamento. No momento em que ele me disse não, pude perceber que independentemente desssa resposta eu fiz o mais acertado, o mais evolucionário. Eu segui aquilo que queria, não para mim, mas para este todo a que me entreguei.
Demorou um mês para o David perceber o mesmo que eu, e assim, em Agosto, iniciamos o nosso relacionamento.
Nesta fotografia, festejamos em comunidade, o nosso primeiro aniversário: foi alvo de notícia na newsletter e tudo!

 

 

Crescemos e evoluímos juntos. Eu tornei-me numa verdadeira Mullher e o David num verdadeiro Homem.
E sempre seguindo este chamamento que nos impulsiona a evoluir, havia algo mais a fazer/ser. Durante o meu retiro solitário de 30 dias, ambos passamos pela mesma experiência: o casamento era o próximo passo no nosso relacionamento. E mais uma vez, percebemos que não era apenas para nós, mas que este passo era parte integrante desta nova cultura que todos estamos a criar no Awakened Life Project.

 

Quando fui pedida em casamento, pude ver, tal como filme, todas as auto-imagens de uma baixa auto-estima a aparecerem à minha frente! Mas, conscientemente, e sabendo que apenas são imagens limitantes, não querendo ser arrogante ao ponto de ignorar e não receber o que me estava a ser dado naquele momento, não podia responder outra coisa que não: SIM, aceito! E para ter a cereja em cima do bolo, não só fui pedida em casamento nesta vez, mas também em frente aos nossos pais, com um anel de família.

 

1 ano depois de iniciarmos o nosso relacionamento amoroso, casámos.
Optamos por fazer 2 cerimónias: uma espiritual aqui na Quinta e a legal no Porto para que a minha avó pudesse participar desta celebração.
Ambas as cerimónias foram uma celebração não só do nosso amor, mas do amor pela vida, pela evolução e por algo maior, que, na verdade, transcende qualquer explicação.
A magia de 3 dias em que ambos expressamos um ao outro e à frente de amigos e familiares que estamos mais interessados em evoluir em amor pela vida, do que em qualquer interesse pessoal que seja vindo desejos egoístas e puramente limitantes, criando separação entre ambos e entre nós os dois e o Mundo.

Elevei a minha voz, não só nestes 3 dias de cerimónia, mas para todo o sempre.

 

 

Sim, deixei de estar apegada ao síndrome da Cinderela! Fui descalça ao meu casamento, e o David não teve de experimentar o sapato perdido no meu pé. E não houve qualquer cavalo nesta história! O nosso casamento foi o espelho do que mais valorizamos e isso implicou também a presença de várias tradições Portuguesas.

 

Tive a felicidade de escolher uma história que deixou de encantar, mas que passou a ser verdadeira. Porque a magia está na realidade em concretizar sonhos que vêm de uma profundidade consciente que é mágica, a partir do momento em que a pessoa deixa de ter expectativas, mas passa a responder à vida.

 

“To Love, to Life, to Freedom” – Ao amor, à Vida, à Liberdade.

 

 

Que mais há além do serviço à vida?
Raquel Perdigão

O que é a evolução da cultura e como acontece?

Nos dias de hoje quase toda a gente ouviu falar sobre evolução e para muitos não há dúvidas de que é real. A ciência explica a evolução do Universo, com o seu início no Big-Bang, uma inimaginável explosão de energia, que ao longo de mais de 14 mil milhões de anos deu origem à matéria, depois à vida e, mais recentemente, à mente e consciência. E se ao nível físico e biológico houve já muito progresso no nosso entendimento dessa evolução, ao nível da cultura parece haver ainda um profundo desconhecimento de como essa evolução se processa.

Ao longo de muitas gerações, @s filh@s têm procurado ir para além daquilo que os pais conquistaram, essencialmente numa procura de independência, mas também respondendo a um impulso que quer sempre ir mais longe. Mas que impulso é esse? É o simples, mas poderoso, impulso para evoluir, de ir para além dos limites impostos e imaginados, de descobrir novos territórios físicos, mas também na mente e no espírito. Esse impulso evolutivo tem estado sempre presente, desde a origem do tempo e do espaço e, consciente ou inconscientemente, é ele que nos move. O impulso de criar, de inovar, de ir para além de todas as fronteiras, leva-nos a viajar fora de nós (neste planeta e fora dele), mas também dentro de nós, à descoberta de quem realmente somos e do nosso propósito nesta maravilhosa existência.

Mas então e a cultura, o que é, para que serve e como evolui? A cultura é a forma como nos relacionamos uns com os outros, são os valores que partilhamos e que servem de base a tudo o que fazemos, é a forma como nos expressamos a vários níveis e são as linguagens que usamos para comunicar. Através da cultura que um povo expressa podemos observar não só os seus interesses e desafios, como também os níveis do seu desenvolvimento, enquanto seres humanos em evolução. Por exemplo, observando certas tribos que vivem em locais mais remotos ainda hoje, podemos perceber como a maioria da humanidade vivia e se relacionava no passado. E ao observar os primeiros estágios de desenvolvimento de um indivíduo numa sociedade moderna, podemos também reconhecer estágios mais antigos na evolução da cultura humana. Ou seja, assim como a filogenia (estudo da relação evolutiva entre espécies) e a ontogenia (estudo do desenvolvimento de um organismo) nos mostram a evolução física da nossa espécie, através do desenvolvimento embrionário e nos primeiros anos de vida em cada indivíduo, também a antropologia nos ensina a evolução da cultura através dos diferentes povos que existiram no passado, bem como através de alguns que ainda hoje existem. Assim sendo, e tal como acontece com os nossos corpos e com tudo o que nos rodeia, também a cultura tem evoluído ao longo dos milénios em que a civilização humana tem povoado este lindíssimo planeta azul. Uma não está separada da outra e ambas expressões  dessa evolução cumprem um mesmo propósito, o de manifestar a perfeição de todo este Processo maravilhoso e imensurável do qual fazemos parte.

Desde que faço parte do Projecto Vida Desperta, há pouco mais de 6 anos, que a cultura e a sua evolução têm ganho maior relevância no meu dia-a-dia. Através do crescente interesse e dedicação de um maior número de pessoas, não só em Portugal, mas um pouco por todo o mundo, tem sido possível explorarmos cada vez mais em conjunto as diferentes facetas da evolução consciente da nossa cultura. A palavra “consciente” assume aqui um significado muito importante, pois procuramos ter sempre presentes as motivações das nossas escolhas e acções, em cada instante, bem como das suas implicações. E porquê? Porque à medida que nos vamos conhecendo melhor, a nós próprios e uns aos outros, vamos percebendo que ainda fazemos escolhas condicionadas pelo nosso passado e pelas nossas experiências, que por sua vez são o resultado das experiências dos nossos antepassados. E enquanto essas escolhas forem feitas de uma forma pouco consciente, não temos verdadeiramente uma oportunidade para as transcender, para fazer, em consciência uma escolha livre, não limitada por aquilo que pensamos ou acreditamos ser real.

Uma das formas mais interessantes e com maior potencial em fazer este “trabalho” de crescimento e evolução, mas também mais intensa e desafiadora, é a vida em comunidade. Essa foi uma das razões que me levou a mim e à minha esposa Teresa, a querermos viver juntamente com outras pessoas, também interessadas em criar uma nova cultura, com base na confiança, na transparência e num maior cuidado pelo todo, indo muito para além dos nossos interesses pessoais, desejos, medos e apegos. Isso não significa que o medo de arriscar e avançar no desconhecido deixam imediatamente de estar presentes, apenas porque agora estamos mais interessados em transcender o que nos limita e em evoluir, mas o facto desse medo poder ainda estar presente já não nos impede de fazer uma outra escolha, mais consciente e livre, em cada instante. Nesta cultura que juntos estamos a criar, não só valorizamos a autenticidade em cada indivíduo, como apoiamos a melhor parte de cada um de nós, dando cada vez menos espaço e atenção à parte de nós que apenas procura manter o conforto e a segurança do conhecido.

Desta forma, parte do “trabalho” que fazemos em conjunto consiste em observar, questionar e explorar os nossos padrões enquanto homens/mulheres/pais/filhos/etc, mas também as “dinâmicas” entre estas diferentes combinações. Tem sido muito revelador olharmos para os nossos padrões e relacionamentos de uma forma impessoal, ou seja, perceber que praticamente tudo aquilo que se passa “dentro” de mim e que parece ser apenas “meu”, também acontece “dentro do outro”. Todos sentimos medos, desejos, desafios, alegrias etc., que nos parecem muito pessoais, mas serão essas experiências de facto únicas? Haverá alguma diferença entre o “meu” medo e o “teu” medo, para além do objecto ao qual esse medo se refere? Será que o medo de aranhas, o medo das alturas, ou mesmo o medo de perdermos a vida são assim tão diferentes? Todos eles resultam da nossa identificação exclusiva com o nosso corpo e mente, mas será que somos apenas isso, ou haverá algo mais profundo que não é diferente de pessoa para pessoa? Todos vivemos dias em que nos sentimos tristes ou felizes, mas será que quem realmente somos muda com cada uma dessas experiências? O que temos descoberto é que quanto menos atenção damos à forma como nos sentimos e escolhemos agir de uma forma menos condicionada e limitada por esses sentimentos, criamos oportunidades para sermos genuínos e manifestarmos algo novo, em vez de constantemente repetirmos os mesmos hábitos e padrões, muitos dos quais nos mantêm infelizes.

Um exemplo desta nova cultura que já estamos a criar juntos é o facto de termos vindo todos para a Holanda, por um período de 5 semanas, pois este é o país natal da família que presentemente vive connosco. O facto de termos vindo essencialmente para trabalhar, mas de o termos feito em família, como sendo uma “comunidade nómada“, mostra que o “trabalho” mais importante para nós é o de crescimento e evolução. Ao não querermos estar separados fisicamente por 2-3 meses, e de termos escolhido apoiarmo-nos mutuamente nas diferentes facetas da nossa vida, faz com que eu e a Teresa tenhamos escolhido estar longe de casa e do conforto do que já conhecemos, e embarcar nesta aventura num país quase desconhecido para mim. Ainda assim, o sentimento de “estar em casa” está muito vivo e presente em todos nós, pois apesar das diferenças na paisagem e dos diferentes hábitos desta cultura, continuamos todos juntos. Ao estar em contacto com uma cultura em certos aspectos tão diferente da nossa, tem-me feito perceber como cresci com uma atitude perante a vida tão baseada na escassez e no medo. Para mim é tão natural poupar e aproveitar algumas das coisas que aqui na Holanda facilmente se dão ou deitam fora, que me parece difícil acreditar como é possível haver tamanhas discrepâncias na maneira de pensar e agir em diferentes culturas. Ambas resultam das diferentes circunstâncias e escolhas no passado e no presente, mas em ambas há ainda muitas acções que são inconscientes nas suas motivações. Esta possibilidade de viver nesta cultura em certos aspectos tão diferente da qual eu cresci, realça ainda mais a importância de examinar o que nos move e de querer fazer escolhas mais conscientes e livres.

Tudo isto me faz querer olhar para cada nova experiência com mais interesse, abertura e curiosidade, pois me permite ver com mais clareza onde ainda me estou a limitar nas minhas escolhas e ideias. Isso abre espaço para o novo e dá origem a muitas perguntas: Como será a expressão de uma cultura livre do passado, não tão condicionada pelos medos, pressões e competitividade da nossa sociedade actual, mas mantendo presente a experiência que adquirimos ao longo do caminho? Qual o potencial de cada indivíduo, e do colectivo, numa cultura mais interessada em evoluir, do que em manter o status quo, especialmente quando já não serve os propósitos inicialmente estabelecidos? Se também sentes curiosidade e paixão em responder a estas e outras perguntas, mantém-te atento ao Evolusa e participa neste movimento de descoberta e evolução!

Ricardo Gonçalves

30 Dias em Retiro – Despertar para a família

No dia 11 de Dezembro de 2016 comecei um retiro solitário de meditação e silêncio que acabaria 1 mês depois, a 11 de Janeiro de 2017. Há quase 2 anos que eu sabia que o iria fazer e 2 anos foi o tempo que levou a certeza a tornar-se tão certa que a escolha já não era uma possibilidade. Tanto aconteceu nestes 30 dias que precisaria de outros 30 para os digerir e uma vida para os contar, vivendo-os. No entanto, quero escrever agora sobre como este retiro abriu-me à minha família.

Este período foi escolhido por ser a altura do ano em que, profissionalmente, iria ter menos solicitações e compromissos. No aspecto prático, esta foi a minha principal motivação ao escolher a data, os 30 dias do ano mais simples para eu “desaparecer”. O “desaparecimento” em si seria para os que não iam comigo, porque para mim, que fui, “apareci”.

É a minha experiência, ano após ano, que durante a época Natalícia, as festas ajantaradas que gravitam à sua volta e o aquecimento para o Ano Novo, não há reuniões ou telefonemas de urgências urgentes e por outro lado há um sorver cultural generalizado de atenção.

Tinha duas vozes fortes dentro de mim e uma certeza. A certeza era o sentimento tão certo daquele ser o momento para fazer o retiro; uma das vozes concordava com a escolha da altura, fundamentada pela conjuntura festiva; a outra voz que falava-me dos apuros familiares em que me poderia meter. Aquela é também, quase, a única altura do ano em que vejo alguns dos meus familiares, em que primos e amigos emigrantes voltam a casa, em que conheço os novos rebentos e todos nos actualizamos quanto aos sítios, formatos e estados de espírito por onde temos andado.

Não nutro uma ligação, especialmente próxima, aos motivos da celebração em si, ou aos rituais de consumo que a todos assalta, ou sequer às mesas “gordas” em disposição permanente (embora nutra afecto pela Roupa Velha – vegetariana – mesmo fora de época). Tenho para mim esta altura do ano como, isso mesmo, um tempo de afecto. Há algo de muito gratificante em ver a família toda junta, observar e contribuir para o escarcéu de conversas que se sobrepõem e que sobem de volume com o subir da hora e o descer da sobriedade. É a Festa da Família e a presença de todos é uma garantia de que tudo corre normalmente.

No entanto, a vontade assertiva de fazer este retiro fazia dele uma não-escolha. Era meu, era um tempo para mim, era um tempo apenas, algo explorativo, para além de qualquer expectativa que pudesse traçar, para além de lugares comuns revisitados, rotinas ou hábitos.

Em 33 anos não tinha, ainda, faltado a esta celebração familiar e sentia a pressão social e interna de a cumprir, para além de ter todo o prazer em a acompanhar e viver. Assumir a minha decisão, primeiro perante os meus pais, em fazer o retiro requereu alguma coragem, explicar o porquê de o fazer também. Requeria ainda mais coragem contá-lo e explicá-lo aos meus avós. Sentia-me, no entanto, escudada pela minha reputação e historial familiar em não ser propriamente a pessoa mais previsível ou caseira. Contei primeiro aos meus pais e depois aos meus avós e o que aconteceu foi muito curioso de testemunhar, tanto no início como no desenrolar da história até ao início do retiro.

Com os meus pais, senti um apoio sincero à minha escolha e em simultâneo alguma tristeza e receio por ser a única da família a não estar presente, que se manifestava em preocupação. A questão de passar um mês em retiro solitário também lhes provocou alguma confusão, apesar de já estarem habituados a estas explorações pouco comuns. A surpresa para mim veio dos meus avós pela serenidade e positividade com que me responderam: “Estás feliz? É isso que importa”. Se havia alguém a quem não queria causar tristeza por faltar a esta data era a eles e eles deram-me mais do que apoio, deram-me a simplicidade.

Mostrar-me e “contar-me” aos meus pais e avós foi o início de um aproximar afectuoso inesperado. Algo aconteceu neste assumir de escolha e vontade, que suavizou o trato entre nós e ampliou o cuidado. Não esperava que anunciar uma ausência de um mês, quando é suposto estarmos mais presentes, trouxesse tanta cumplicidade e interesse.  Até ao momento em que comecei o retiro, visitei-os a todos mais vezes, ligámo-nos mais e até mais do que a frequência foi a qualidade do estar que se transformou. Entrar assim em retiro, foi como deslizar confiante para a única coisa que me interessava: relaxar profundamente no Agora e deixar a intuição levar-me à exploração dessa entrega.

Nos dias que precederam este retiro, em conversa com amigas que, por várias razões, tinham passado o Natal longe das suas famílias todas referiram a saudade ou solidão que surge na própria noite. Ouvir estes relatos fez emergir alguma nostalgia e receio antecipado de passar uma noite difícil. Ainda assim, o colosso da experiência a que me estava a propôr transcendia qualquer dúvida iminente ou receio de dor.

O retiro começa e a noite da véspera de Natal chega no dia 14 dos 30 dias. Por esta altura já estava muito mergulhada no silêncio ensurdecedor de toda a vida que me envolvia. Estava num yurt numa pequena planície no fundo de um vale estreito e aceso com bichos de toda a espécie, luzes, sombras, riachos e gelo. Este era sem dúvida um dia especial e os meus pais, o meu irmão, os meus 4 avós, o meu companheiro, invadiram-me em força.

Fui assomada por um sentimento de amor tão forte que o corpo parecia não aguentar. Fiquei, sentada a vivê-lo e a ouvi-lo. Sentia o peito a esmorecer e a querer fazer-lhe uma vénia, a ele, ao amor. Dizia-lhe “És bem-vindo e eu escolho ficar contigo”.

Começaram a passear memórias por mim, de pequenos nadas quotidianos familiares. A forma impaciente como por vezes respondo à minha mãe e ao meu pai, o porquê e como isso também me magoa. Vi-os como nunca antes e apreciei-os como nunca antes o havia feito. Vi-os como as pessoas bonitas e íntegras que são, vi-os como nem eles próprios se vêem e senti como responsabilidade minha responder-lhes sempre num reconhecimento dessa integridade. Vi com clareza o amor e cuidado que nutro pelo meu irmão, mesmo vendo-o pouco, e senti a vontade urgente de tornar palpáveis estes sentimentos.

O amor é para ser expressado, ponto final. Para além disto, o amor é para ser expressado e agido sob pena de nos sentirmos sempre incompletos, imperfeitos ou sós. Mais ainda, é da natureza do amor querer-se “espalhar ao comprido”, contagiar e relacionar-se com outros. Surge com tamanha alegria no corpo que abafá-lo depois de o conhecer, parece provocar contusões internas e surtos asmáticos. Ele corre nos braços, na garganta e faísca nos olhos, quer-se dar para além de cálculos de quanto irá receber em troca. É péssimo a matemática.

Em 30 dias de entrega à exploração da minha natureza mais real, muitas ideias caíram redondas, muitos preconceitos tornaram-se visíveis e no fim de contas todos eles funcionam como um travão ao amor, à alegria. O que, primeiro, vi subtilmente, tornou-se grosseiro quando percebi a amplitude das consequências desse travão: reforça e impõe limites a nós próprios e aos outros, vê o mundo etiquetado por categorias e preferências e na verdade toma por realidade a sua própria história orquestrada do mundo.

Perceber as linhas do amor e a sua função não foi fácil. Depois de as reconhecer torna-se mais simples mas mantém-se o desafio de o expressar. Um desafio sem escolha, se não o abafarmos novamente com preconceitos antigos.

O dia e a noite de Natal acabaram por ser esse dia de “estar” com a família, em que me dei ao tempo e ao espaço para receber este sentimento urgente, as memórias e novos entendimentos. “Levo um sorriso preso ao peito”, lia-se no meu diário de bordo ao final do dia. Sorriso que não me larga se eu não largar o que vivi.

Esta experiência mostra-me, outra vez, de como nos relacionamos e vivemos todos bem na diversidade. Isto, quando estou fora do registo de preconceitos subtis ou grosseiros e se me entrego à vontade e curiosidade de ver mais e melhor acima do querer ter razão ou pensar que já sei. Foram 30 dias de uma exploração sincera. Uma exploração de quem não quer, sinceramente, travar mais o amor.

Agora, dois meses depois do retiro, a ligação estreita que nasceu fala mais alto do que qualquer outra invenção que surja para não a seguir, em palavras e actos. Autonomia e amizade, são as qualidades que me assaltam quando penso nos meus pais. Tenho dois novos amigos. Quero descobri-los e conhecê-los para além do papel de “pais” que representaram para mim até agora. Agora, sim, quero mais ouvi-los do que lhes responder ou “educar” e, com isto, também eles me ouvem mais e “me educam” menos.

Sara Silva

 

Evolusa no Cidade Mais – mais do que um evento

Participar no Cidade Mais, com o Projecto EvoLusa, é, felizmente, já habitual.

Este, não foi só a 3a edição do Festival, mas também a nossa 3a participação. E, mais uma vez, foi evidente que o EvoLusa não é mais um projecto, não é mais uma coisa em que estamos envolvidos, não é um fardo. É a expressão daquilo que somos e da nova Cultura que queremos e estamos a criar juntos.

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A Sara Silva, que faz parte do Evolusa, é uma das pessoas que organiza o Cidade Mais. Este é um evento anual gratuito que celebra a Sustentabilidade e o Ambiente! Promove o encontro e simplifica a sustentabilidade, tornando-a imediatamente acessível a qualquer pessoa e organização! Surge para despoletar sinergias entre pessoas, projectos, autarquias, instituições e empresas que inspiram, actuando como evento-laboratório onde todos os participantes ensinam e aprendem a Sustentabilidade à escala glocal na vertente económica, social, cultural e ambiental.

Eu e o Ricardo, criamos uma oficina que pretendia estimular o português a conhecer-se a si próprio, através de diálogos e alguns exercícios criativos. Foi uma oportunidade para perceber melhor os condicionamentos da cultura portuguesa, bem como para explorar algumas das qualidades que nos permitem crescer e evoluir.

A oficina estava marcada para as 15h de sábado, dia 9 de Julho. Esperávamos bastantes pessoas, visto ser fim de semana, com um tempo convidativo para sair de casa. Os jardins do palácio estavam cheios de gente. Mas tínhamos apenas 3 pessoas inscritas para a nossa oficina. Eu e o Ricardo sabíamos que acontecesse o que acontecesse, não íamos desistir. Mas na verdade, das 3 pessoas, nenhuma apareceu! Pude ver claramente a experiência mista em mim: 1 – ainda bem, porque nunca tentamos esta oficina, 2 – que desilusão, queria mesmo fazer algo novo e partilhar o EvoLusa e 3 – as coisas são como são e aceito o que está a acontecer.

30 minutos passados da hora marcada para o início da oficina, uma das voluntárias do Cidade Mais, perguntou-nos de forma curiosa, qual era o objectivo da nossa oficina. Depois de perceber o que era o EvoLusa, a Paula correu os jardins de uma ponta à outra, para falar com as pessoas que por ali passavam e apregoando a nossa Oficina. Ela não conseguiu incentivar a participação, mas eu e o Ricardo ficamos impressionados com o espírito e a alma preserverantes e brilhante da Paula. E o sentimento de entreajuda – o vosso sucesso é o meu sucesso também. A Paula Reis foi uma verdadeira inspiração e mostrou bem o que é a alma Lusa!

Já eram 16h e pouco quando um círculo xâmanico iniciou na zona do jardim onde estávamos. Seria a hora de desistir? Tinha de ser, pois o espaço tinha de ser usado. O Ricardo decidiu participar no círculo e ambos ficamos surpresos e mais uma vez inspirados com aquilo que aconteceu, mal o círculo terminou. “Agora vamos todos participar na vossa oficna!”.

De repente, entre os participantes do círculo, e amigos nossos, tínhamos cerca de 10 pessoas a fazer a oficina EvoLusa!

Depois de explicarmos o que é o EvoLusa e em que consistia a oficina, todos participaram activa e alegremente. Colocámos 2 situações normais e pedimos que “teatrilizassem” essas situações com respostas previamente dadas. Por exemplo, numa ida ao café 2 pessoas pedem um café e ao verem que o café está frio, uma delas reclama e outra não. Após o exercício, todos exploramos as reacções a este tipo de situações e porque as temos. De onde vêm as nossas respostas? O que nos diz esta situação acerca de:

  • destaque pessoal
  • inferioridade
  • medo de confronto
  • quebra de hábitos

Esta oficina foi uma verdadeira prática do que é o EvoLusa, não só pelo que ambos criamos e levámos ao Cidade Mais, mas também pelo processo de criação da oficina e pela participação curiosa das pessoas que connosco estiveram.

Este é de facto o caminho que quero percorrer!

Obrigada Sara pelo convite, Ricardo pela equipa que criámos, aos amigos que nos apoiaram e incentivaram, ao resto da equipa EvoLusa e às pessoas que participaram na oficina.

Queremos fazer mais destas oficinas e mal podemos esperar pela próxima!

Fiquem atentos, pois em breve iremos divulgar as nossas próximas actividades.

Raquel Perdigão

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Destacar-me como uma Mulher Portuguesa – Standing out as a Portuguese Woman

Por Raquel Perdigão

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Sempre tive medo de me destacar e, ao mesmo tempo, sempre quis ser aquela que se destaca. Como é possível ser as duas coisas ao mesmo tempo? É um exemplo perfeito de dualidade de de querer ser aquela que é alguém importante. Sempre, ao longo da minha vida, tive a vontade de ser alguém. Superior ou inferior. E destacar-me sempre foi algo que tive de lidar com desde que me lembro. Quando era criança, fazendo parte do coro da igreja, eu era a que cantava o “Aleluia”. Todos elogiavam a minha voz. Eu era sempre a escolhida para cantar. Alguns anos depois, inconscientemente, decidi esconder a minha voz. O local ideal para cantar passou a ser a minha casa de banho! Durante e depois do secundário, eu tive alguns anos em que ora tinha as melhores notas ora as piores também. Eu sentia-me a melhor e a pior na escola. Eu tinha amigos introvertidos e extrovertidos, mais velhos e mais novos. Eu não era muito popular, mas fazia parte de um grupo activista ambiental na minha escola, e, ao mesmo tempo, eu era alvo de bullying. Sempre fui muito activa nos trabalhos que tive e isso colocou-me em dois lugares: um em que eu sei tudo e que é perfeito, o que consequentemente me fez sentir superior e outro em que ninguém me queria como colega de trabalho, porque eu brilhava e ofuscava os meus colegas, e que consequentemente me fez sentir inferior. Contemplando agora a razão ou as razões porque eu agi dessa forma, eu acho que  ser o centro das atenções levou-me a uma posição de não querer ser mais “aquela” ou “a que faz isto ou aquilo”, porque ser o centro das atenções sempre foi muito desafiante para mim.

I was always afraid to stand out and at the same time, always wanted to be the one that stands out. How is it possible to be both at the same time? It is a perfect example of duality and wanting to be the one who is someone important. I’ve always, throughout my life, had the will to be someone. Superior or inferior. And standing out has always been something that I have dealt with since I can remember. As a child, being part of the church choir, I was the one singing the “Hallelujah”. Everyone praised my voice. I was always the chosen one to sing it. Some years later, I unconsciously decided to hide my voice. The ideal place for singing became my bathroom! During and after high school, I had my years of being the one that took the best notes and the worst grades too. I felt the best and the worst in my classes. I had extremely introverted friends and extroverts friends, younger and older. I was never very popular, but I was part of the environmental intervention group in my school, and at the same time I was the target of bullying. I was always very active in the works that I had and it put me in two different places: one that knows everything and that it is perfect and that consequently feels superior and one that nobody wants to have as a colleague at work, because it is to shinning and dazzles the others and therefore feels inferior. Contemplating now the reason or reasons why I did this, I assume that to be the center of attention took me to a place of not wanting to be “the one” anymore, because being in the spotlight has always been very challenging for me.

Porque é que é tão desafiante destacar-me? Por tudo aquilo que vivi, por causa da História da Mulher, ser o centro das atenções pode significar ser o alvo a atacar e sendo Portuguesa como eu sou, está-me no sangue que eu sou pequena, tal como o meu país situado no canto da Península Ibérica!

Why is it so challenging to stand out? For all that I have lived, because of the women’s history, being the center of attention can mean to be the target to shoot down and being Portuguese like I am, it’s in my blood that I am small, like my country located in the corner of Iberian Peninsula!

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Ser quem eu sou, da minha parte mais profunda, é como eu me quero expressar agora, sem agir de acordo com o meu condicionamento de superioridade, inferioridade, medo e competição. Esta competição poderá estar activa entre mim e outras mulheres e também entre mim e homens. São os pequenos detalhes do dia a dia que fazem toda a diferença entre um relacionamento íntegro ou um relacionamento baseado em mentiras e manipulação.

Being who I am, in my deepest part, is how I want to express myself now, without acting in accordance with my conditioning of superiority, inferiority, fear and competition. This competition can be active between me and other women and with men. It is in small little daily details that make all the difference between a integral relationship or a relationship based on lies and manipulation.

Pensando na minha profunda base de acção, é usualmente o medo da morte – o medo de ser morta da forma mais sofrida que eu possa imginar! E claro, que eu não quero agir deste medo – eu quero ser livre, eu quero ser a mais profunda e libertadora expressão do quem eu sou: um Universo que cresce e brilha todos os dias. Eu não quero ser melhor ou pior do que outras mulheres e outros homens. Eu não quero ser mais do que aquilo que eu sou.

Thinking about my deepest source of action, it is often the fear of death – the fear of being killed in the most excruciating way I can imagine! And obviously, I do not want to act from this fear – I want to be free, I want to be the most profound and liberating expression of who I am: a universe that grows and shines every day. I do not want to be better or worse than other women and men. I don’t want to be other than what I really am.

E também, me comprometo a expressar-me de uma forma libertadora, com paixão, sem medos, ideias ou expectativas. Estar na televisão mostrando e falando sobre o impulso evolucionário que é a sabe do Projecto Vida Desperta, ou escrevendo de forma transparente acerca da minha vida como um veículo que eu sou neste Universo que quer ser mais e mais a cada dia, sem restrições.

And so, I commit myself to express myself freely, compassionately, without fears, ideas or expectations. Being in television showing and talking about the evolutionary impulse that is the basis of the ALP or writing transparently about my life as a vehicle that I am in this universe who wants to be more and more every day, without restriction.

Afinal, eu posso ser apenas uma das estrelas de uma pequena constelação, mas esta constelação não seria o que é, se eu lá não estivesse.

After all, I may be just one of the stars of a small constellation, but this constellation wouldn’t be what it is, if I was not there.

Raquel Perdigão

O Medo de Destaque, Medo de Sobressair

 Por Pedro Morais

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A timidez, a insegurança, o medo de errar, falhar e ser criticado. Este movimento/condicionamento que se começou a manifestar em mim com mais força na transição da adolescência para a idade adulta foi em muitos momentos inibidor de uma expressão autêntica, genuína, espontânea; livre. Muitos amigos e conhecidos poderão dizer que sempre fui uma pessoa muito social e até com algum protagonismo nos meios por onde fui passando, mas por trás desse aparente “à vontade” e confiança, reside um medo muito grande de arriscar, de ousar, de acreditar que sou capaz, de confiar em mim e na própria vida.

Apesar de este movimento de insegurança e inferioridade não ter desaparecido, ele tem perdido o seu domínio sobre mim. Porquê? Porque tenho escolhido não me identificar com ele. Porque reconheço e entendo que é apenas um condicionamento cultural, fruto de todo um enquadramento social e histórico que faz com que esta ideia de limitação esteja tão viva na nossa cultura. Por ser um movimento impessoal e reconhecendo-o pelo que é, posso escolher e tomar a decisão consciente de não ser inferior, tímido, inseguro, de confiar nas minhas qualidades e capacidades e posso também criar espaço para que algo novo, algo que está para além de todos estas ideias se revele. Por ser um condicionamento cultural, questiono quantos Portugueses se revêm nele e quantos acreditam mesmo que são inseguros, que revelam falta de confiança e não acreditam no seu potencial. Serão muitos com certeza, porque crescemos nesta cultura que nos diz que não vale a pena, que não somos capazes, que os grandes feitos e as grandes obras não são para nós, que somos limitados e que temos que nos conformar…

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A minha paixão para falar sobre este tema é imensa porque este mesmo movimento de inibição e limitação, tem sido ao mesmo tempo um motor muito grande de desenvolvimento e crescimento. Falo em crescimento e desenvolvimento porque este sentimento é tão forte que me obriga muitas vezes a um esforço para o poder transcender; sinto-me muitas vezes como que esticar-me, a ir para além da barreira, a ir para além da fronteira da limitação e é aí que encontro a liberdade. Não se trata de extinguir o condicionamento e a aparente limitação, trata-se de no momento em que surge a pressão e a mensagem que não sou capaz, de fazer a escolha de não me travar e não recuar perante o desafio, sabendo que essa mensagem vem de uma parte de mim que insiste na limitação e que eu, no meu Ser mais profundo, sou completo e ilimitado. Por isso, é nesta combinação de esforço, perseverança e dedicação que encontro a confiança e a rendição para poder fazer o que estou a fazer.

Neste processo de desidentificação com este condicionalismo de inferioridade, insegurança, timidez e falta de confiança, tenho-me redescoberto e encontrado numa constante surpresa comigo mesmo. Há não muito tempo atrás seria impensável para mim dar uma palestra em frente a outras pessoas, falar da minha própria experiência, ser vulnerável, dar voz e expressar aquilo que para mim é realmente importante em frente a um público. Neste sentido, a apresentação do projeto Evolusa no dia 25 de Abril em Lisboa foi de facto incrível porque a minha intervenção foi sobre o este movimento de retração muito forte ao mesmo tempo que ele estava a surgir. Aquilo que cada vez mais reconheço na minha experiência é que ao escolher não recuar, acontece um empoderamento e que quanto mais o faço mais me enraízo na verdade que eu sou aquilo que quero ser.

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Há cerca de 3 anos atras num Retiro no Projecto Vida Desperta, quando surgiu o primeiro grupo de discussão, na minha primeira intervenção disse que o meu principal medo era falar para um grupo, era ser o centro das atenções e o quanto isso me deixava em pânico. Percebi nesse momento que ao falar abertamente sobre o meu maior medo, que foi aberto um espaço em mim de autenticidade e vulnerabilidade que me permitiu falar por largos minutos e lembro-me o quanto isso foi libertador. Daí para cá tem sido um processo longo, um processo muto implicativo que visa acima de tudo o enfrentar dos meus medos.

Agora, o que é que acontece quando nos identificamos com os nossos medos e com condicionalismos de inferioridade, incapacidade, insegurança, medo de errar e falhar? Convém aqui dizer que quando falamos em identificação, o mesmo significa o momento em que damos força e poder ao medo e a qualquer condicionalismo e o tornamos real, tornando-nos de facto inferiores, incapazes, etc…

Quando nos identificamos com estes movimentos o que acontece é uma autossabotagem, uma autossabotagem ao nosso potencial, comprometendo os nossos sonhos e as nossas aspirações mais elevadas. Por isso é tão comum em Portugal frases como “Epá eu não consigo”, “Isso não é para mim”, “Não dá”, “Não sou capaz”, “Nunca hei de lá chegar”, “Se eu pudesse”, “Gostava muito mas não posso”, “Talvez um dia”, “Agora não” e muitas outras que apontam para uma fatalidade autoimposta de incapacidade e sabotagem. E se são muitas as vezes que verbalizamos este tipo de frases, se formos sinceros, vamos reconhecer que são muitas mais as vezes que em que não as verbalizamos, que as escondemos do exterior e do mundo à nossa volta, mas que repetimos para nós próprios. A repetição e identificação contínua com estes pensamentos levam-nos a uma crença que com o passar do tempo se torna real e daí cresce uma cultura baseada no medo e em complexos. É preciso dizê-lo e fazer o reconhecimento que tudo isto acontece por um processo de autossabotagem coletivo de que todos nós fazemos parte e somos responsáveis. Por isso se somos responsáveis por criar este processo de autossabotagem coletivo, temos também a responsabilidade e a capacidade de o desconstruir e de nos redesenharmos de uma forma criativa.